A criação de valor deve ser a lógica de atuação das empresas e de funcionamento dos mercados financeiros. Só assim teremos uma economia sustentável que cuida das pessoas e do planeta.
A Católica Lisbon School of Business and Economics, em parceria com a Fundação Santander, organizou de 30 de junho a 2 de julho a 2.ª edição da Lisbon Sustainability Week (LSW), um encontro mundial de reflexão sobre como integrar a sustentabilidade nas estratégias empresariais e no sistema financeiro.
Foi interessante este grande encontro ter acontecido na semana em que uma vaga de calor de severidade nunca antes sentida assolou a Europa, causando milhares de mortes acima dos padrões normais de junho.
Embora o tema da sustentabilidade pareça ter saído das agendas políticas, dada a dificuldade em gerar consensos globais e a preocupação dos políticos com temas geopolíticos e de competitividade, a verdade é que as mudanças climáticas estão a acontecer a um ritmo superior ao esperado pelos cientistas. E os líderes empresariais reconhecem isso, elegendo os riscos climáticos e naturais como os principais riscos para o seu negócio no longo prazo.
Organizada pelas equipas do Center for Sustainable Finance e do Center for Responsible Business da Católica, a LSW foi o ponto de encontro de centenas de pessoas muito diferentes - académicos, líderes empresariais, empreendedores, agentes de política pública, gurus da gestão, tecnólogos e economistas de renome, incluindo um prémio Nobel. Pessoas diferentes no seu percurso, mas com algo em comum - unidas pelo propósito de construir um modelo económico sustentável que cuide das pessoas e do planeta.
O primeiro dia foi dedicado aos líderes empresariais, aos investidores e empreendedores. Partilhámos como as grandes empresas estão a integrar a sustentabilidade nos seus modelos de negócio, como os empreendedores estão a desenvolver inovações para a sustentabilidade e como as empresas precisam e devem descarbonizar as suas operações.
Pode-se também reduzir a pegada carbónica dos combustíveis fósseis, ainda que estes continuem a ser críticos para a segurança energética. Neste contexto, o investimento massivo e a implementação de energias renováveis, cujo investimento a nível global é neste momento o dobro do valor investido em combustíveis fósseis, bem como a crescente eletrificação da mobilidade, dão-nos esperança para o futuro.
Um dos oradores de referência foi John Elkington, que trabalha há mais de 50 anos na integração da sustentabilidade nas estratégias empresariais e é famoso pelo seu conceito de Triple Bottom Line, no qual propôs que as empresas devem tentar simultaneamente atingir objetivos ligados aos "3 Ps" (Profit, People and Planet / Lucro, Pessoas e Planeta). John ficou também famoso por ser o único pensador da gestão a ter feito um “recall” das suas ideias num famoso artigo em 2018 na Harvard Business Review. E explicou que o fez porque sentiu que o conceito estava a ser usado pelas empresas como forma de encontrar compromissos entre objetivos vistos como conflituantes, em vez de criar modelos sinergéticos entre as várias dimensões. Era preciso mais ambição e visão.
Em vez dos "3 Ps", John propõe que as empresas neste próximo ciclo abracem os "3 Rs" - Responsabilidade, Resiliência e Regeneração.
Responsabilidade significa que, como líderes empresariais e de finanças, precisamos de passar de uma visão de servir os acionistas e até as partes interessadas (stakeholders — que são quem mais pede e, às vezes, quem mais grita) para nos tornarmos guardiões de recursos e das capacidades das organizações — nos nossos ombros está o bem-estar dos outros no curto e no longo prazo. E as empresas continuam a ser o motor mais importante de progresso económico e social. Um papel que conseguirão cumprir bem se considerarem as externalidades positivas e negativas da sua atuação e as tentarem gerir com responsabilidade.
Resiliência significa que precisamos de evoluir de uma abordagem de otimização da eficiência das cadeias de valor, lógica que pautou as decisões de gestão durante a era da globalização entre 1990 e 2020, para um foco na resiliência das cadeias de valor e dos sistemas económicos perante diferentes choques. De facto, a eficiência funciona num mundo de estabilidade onde a mudança é previsível, mas a resiliência é a estratégia ideal num mundo de choques imprevisíveis como os que crescentemente enfrentamos nos últimos anos, desde a imprevisibilidade da administração americana, a rivalidade geopolítica, à guerra, pandemias e eventos climáticos extremos.
Regeneração significa uma abordagem radicalmente nova para as pessoas e para o planeta — já não se trata de "não fazer o mal" ou atingir o net-zero (zero emissões líquidas) ou não discriminar com base no género, raça, religião ou deficiência. Estas são abordagens lineares baseadas numa lógica de cedências e compromissos (trade-offs). A regeneração consiste em utilizar abordagens inovadoras que gerem riqueza económica ao mesmo tempo que fazem as pessoas e o planeta florescer e recuperar. Novos tipos de agricultura, integrar o pensamento circular nos modelos económicos e de negócio, procurar as sinergias entre áreas e adotar uma visão sistémica em vez de uma visão estritamente organizacional. A regeneração desafia-nos a pensar em estratégias e abordagens 'nature positive' (positivas para a natureza) que foi exatamente o tema do segundo dia da conferência, sendo o terceiro dia focado no tema das cidades pelo clima, em parceria com o Instituto Superior Técnico.
Em resumo, os "3 Rs" levam-nos a adotar uma lógica de criação de valor. E neste contexto deixo uma nota de aviso deixada por vários oradores.
O mundo está em profunda mudança política e tecnológica e atira-nos com muitas narrativas diferentes e pouco sensatas. Os investimentos nas áreas de IA parecem exagerados e os mercados financeiros americanos estão a assumir avaliações elevadas nos preços das ações e riscos enormes de crédito. E estão a vender ações sobrevalorizadas aos investidores, enquanto as oferecem aos 'insiders' com poucas regras e critérios, como se o amanhã não interessasse. Mas o amanhã chega sempre porque em economia não há almoços grátis, pelo que precisamos de desenvolver uma forte intuição para aquilo que de facto cria valor versus aquilo que é pura especulação e vai destruir valor. A criação de valor deve ser a lógica de atuação das empresas e de funcionamento dos mercados financeiros. Só assim teremos uma economia sustentável que cuida das pessoas e do planeta.
Deixo aqui uma nota final de homenagem ao Professor Luís Caeiro da Católica-Lisbon SBE que faleceu na semana passada. O Luís foi um educador excecional que durante 53 anos lecionou e inspirou milhares de alunos nas suas aulas e módulos de formação em Liderança e Gestão de Pessoas. Foi professor dos primeiros alunos de licenciatura em Administração de Empresas da Católica em 1972. Desde essa altura, o Luís nunca parou de lecionar e de escrever livros (3 livros nos 3 últimos anos). Um homem profundamente preocupado com a Liderança responsável e o bem-estar das pessoas, que inspirou e capacitou gerações presentes e futuras a serem melhores líderes empresariais. Bem hajas, Luís e um muito obrigado.
Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon SBE