O Eurostat, instituição estatística europeia, publicou recentemente os dados para a evolução da produtividade na União em 2025. Isso deflagrou por cá grande polémica acerca da má posição do nosso país nesses números e das razões subjacentes aos mesmos. A baixa qualidade do debate dá uma boa pista para a resposta a essas questões.
Muita gente ficou incomodada por, após quatro anos de convergência com a média europeia, 2025 mostrar um afastamento. Mas é perfeitamente normal que uma subida longa gere um ligeiro acerto. Se fosse ao contrário, e tivéssemos caído durante quatro anos melhorando no ano passado, isso sim, seria alarmante. A produtividade é um elemento estrutural, o que torna espúrios pequenos soluços pontuais. A subida de quatro anos é significativa, a descida de um, não.
Por outro lado, é bom lembrar que o indicador analisado é a percentagem da nossa produtividade relativamente à média dos 27 da União. Tal significa que a referida descida não tem de representar queda do nosso valor, podendo ser apenas uma elevação inferior à média. Houve assim muito barulho por coisa nenhuma.
O segundo tema de conversa foi o facto de termos o quarto pior valor da produtividade na União, acima apenas da Letónia, Bulgária e Grécia. Este indicador é, de facto, grave, mas não é novidade. Só quem anda muito distraído não sabe que essa é, há muito tempo, a nossa posição. Sendo estrutural, mesmo que um dia comecemos a lidar a sério com a situação, demorará bastante até haver resultados.
A discussão derrapou quando o indicador foi combinado com o facto de os portugueses trabalharem bastante mais por semana que a média europeia. A ligação permitiu a alguns dizer que o problema era pior, dado a produtividade ser baixa quando os empregados trabalham tanto, enquanto outros preferiam concluir que os trabalhadores não têm culpa da baixa produtividade, pois até trabalham muito.
Estas afirmações esquecem um princípio básico da economia, a “lei da produtividade marginal decrescente”, maneira pomposa de dizer algo evidente: à medida que se trabalha mais, vai-se produzindo cada vez menos. Os países mais ricos trabalham pouco e, por isso, utilizam apenas a parte mais produtiva da semana. É precisamente por laborarem tanto que a produtividade dos portugueses é tão baixa ou, olhando do outro lado, como os trabalhadores portugueses são menos produtivos, são obrigados a trabalhar mais.
Finalmente, vieram à baila os baixos salários, como se fosse um assunto adicional, sem os ver como a outra face da mesma coisa. A única maneira sustentável de subir salários é aumentando a produtividade de trabalho. Enquanto a tivermos baixa, os ganhos nunca poderão subir.
Em resumo, como habitual, falou-se muito para passar ao lado da questão. Como o diagnóstico é errado, não acertamos na terapêutica. Então por que razão temos tão baixa produtividade, sem conseguir aproximá-la dos nossos parceiros? Vale a pena começar por dizer que esta é a questão central da economia portuguesa há várias décadas. Andamos distraídos com outros assuntos, dos défices orçamentais às pensões e regionalização, mas este é o ponto decisivo que resolveria todos esses. Ou seja, por uma vez, embora efemeramente, se discutiu o que vale a pena, mesmo se de forma desajeitada.
As causas a considerar são muitas, como em todos os temas profundos. Não vale a pena distribuir acusações a trabalhadores, empresários, políticos, burocratas, serviços ou lei laboral, embora todos estes sejam culpados. As críticas têm muita razão e de cada uma delas podemos dizer que não explica o drama. Isso permite aos comentadores defender aquilo que lhes agrada, atacando os inimigos pois, mesmo dizendo o inverso do comentador ao lado, ambos têm razão.
Apesar disso, existe algo no centro da discussão: a falta de capital, incluindo o capital humano. Todos nascemos com corpos bastante parecidos; são os instrumentos à sua disposição, incluindo conhecimentos, que tornam os suíços mais produtivos que os portugueses e os portugueses mais produtivos que os mexicanos. Assim se explica a verdade e a vacuidade de um dos principais lugares-comum nacionais: “os nossos trabalhadores são excelentes porque quando vão lá para fora têm ótimos resultados”. Isso é dizer algo tão básico como: “estou atrasado, mas se tivesse carro chegava a horas”.
O problema está no capital, porque não gostamos do capital. Portugal tem baixa poupança, dívidas elevadas e reduzida formação da mão-de-obra. A opinião pública insulta o “grande capital”, suspeita dos patrões e denuncia as finanças. Multiplicam-se obstáculos ao investimento e perseguem-se produtores com inspeções, portarias, regulamentos e imposições.
A razão por que a produtividade é baixa é por, realmente, não a querermos aumentar. Quem tenha uma proposta para a subir é criticado por aqueles mesmos que andaram nos últimos dias a comentar a nossa baixa produtividade.
João César das Neves, Professor at Católica-Lisbon SBE