O mundo (ainda) não enlouqueceu. Tornou-se apenas mais multipolar. E quem ainda não percebeu isso estará a jogar no passado.
As decisões erráticas, as alianças desfeitas, os conflitos económicos entre antigos parceiros e a sucessão de narrativas contraditórias não são sinais de desorientação. São sintomas de um sistema onde o poder deixou de estar tão concentrado, e há que o saber interpretar. Hoje, ninguém manda sempre, e todos fazem parte de pólos com poder. Isso muda radicalmente a lógica da estratégia.
É aqui que a Business Warfare se torna numa ferramenta analítica poderosa. Num mundo mais multipolar, a força directa tornou-se cara, demasiado visível e politicamente tóxica. Os exemplos que temos vivido provam que o confronto directo raramente resolve. Pelo contrário, expõe, desgasta e isola. Quem insiste em dominar num mundo multipolar de actores interdependente transforma-se rapidamente no alvo seguinte, regulatório, económico, mediático ou político.
Aplicar tácticas antigas, como impor regras, alinhar aliados à força, ou escalar poder como se isso viabilizasse controlo, não garante absolutamente nada. É que, em ambientes multipolares a escala cria vulnerabilidade, a visibilidade atrai os adversários e a previsibilidade convida à exploração de fraquezas.
Vivemos desde o fim da Guerra Fria numa forma de conflito permanente, onde a economia, a informação, a tecnologia e a narrativa se tornaram ferramentas centrais. Apesar das armas nas mãos dos militares, o verdadeiro poder exerce-se cada vez mais sem elas. E é aqui que Maquiavel regressa inelutável, pois as redes sociais são uma verdadeira invenção maquiavélica. Mais do que simples canais de comunicação, são autênticos instrumentos de poder, e funcionam porque dizem às audiências aquilo que estas querem ouvir. Não precisam de ser verdadeiras. Precisam apenas de ser eficazes.
Maquiavel chamou-lhe virtù: a capacidade de alcançar objectivos mesmo à custa de uma moral flexível. Surpreendente, não é? Num mundo multipolar, onde o confronto directo tem custos elevados, a influência substitui a força bruta. Afinal, o populismo atual não é um simples acidente histórico. É a consequência estrutural deste mesmo ambiente.
Mas a influência não basta. Antes da ocupação do espaço simbólico, há sempre confronto. E é aqui que Sun Tzu se impõe. Num sistema multipolar, a primeira vitória raramente visa o adversário direto. Visa sim as suas alianças para o enfraquecer. O que hoje espanta não é ver alianças a ruir porque isso sempre fez parte da guerra. O que espanta é ver aliados destruir as suas por dentro.
Tarifas, sanções e guerras comerciais entre parceiros tradicionais corroem rapidamente a confiança acumulada ao longo de décadas. E, quando a confiança se perde, perde-se também a capacidade de exercer influência. As relações tornam-se mais instáveis, mais ruidosas e mais perigosas. Tal pode ser racional se o líder acreditar que ganha mais com esse divórcio, mas ao perder influência deixa de poder ser maquiavélico. E o problema é que a confiança que pode ser destruída em dias demora gerações a ser construída. É, portanto, bom que o líder esteja consciente de que há caminhos sem retorno.
Há talvez um equívoco persistente entre multipolaridade e escala. Business Warfare diz-nos que o crescimento aumenta a exposição e reduz graus de liberdade. Ora, a multipolaridade favorece quem mantém as opções em aberto, com ambiguidade estratégica e capacidade de adaptação. Há até quem lhe chame agilidade. Favorece, portanto, quem se torna ponte, intermediário e tradutor entre pólos que por definição não confiam uns nos outros.
Assim, num mundo multipolar, a verdadeira vantagem não está em dominar o tabuleiro, mas em controlar os seus pontos de articulação. Não está em vencer de forma definitiva, mas em aguentar a tensão do confronto mais tempo e com menos desgaste. Não está em alinhar cegamente, mas em explorar fricções sem nunca revelar o inimigo principal.
Em suma, o confronto aberto é tudo menos maquiavélico. Num mundo onde o poder é relacional e temporário, a vitória absoluta é uma ilusão perigosa. Os líderes mais bem-sucedidos não serão necessariamente os mais fortes, mas sim os mais ágeis e adaptáveis. Não serão os mais visíveis, mas os mais necessários.
E talvez essa seja a grande ironia da multipolaridade: quem tenta mandar sai enfraquecido; quem aprende a manobrar acaba por governar naturalmente.
Paulo Cardoso do Amaral, Professor na CATÓLICA-LISBON