Sustentabilidade e responsabilidade

CATÓLICA-LISBON
Terça, Março 24, 2026 - 17:30

O impacto da ação humana sobre o planeta terra é inquestionável. É indiscutível que nos encontramos em pleno Antropoceno. E os resultados desse impacto começam a ser cada vez mais claros. Confirmam-se, assim, os receios científicos, que agora se comprovam a olho nu. Também se justificam, por isso, os receios de que a nossa existência no planeta – ou mesmo a existência do planeta – esteja seriamente em risco. As posições mais catastróficas parecem ser as mais realistas. Os dados são relativamente unívocos. As interpretações – e as ações daí resultantes – é que podem ser variadas. 

De facto, os mais pessimistas dirão que nada há a fazer. Aliás, algumas posições defendem mesmo que se trata de um processo natural, no qual nós somos um agente da natureza, como qualquer outro e, portanto, o processo de destruição das condições de vida é um processo natural. Tal como surgiu, a vida (pelo menos a humana) tenderá a desaparecer. No outro extremo, alguns otimistas defendem que a própria natureza resolverá o assunto, adaptando-se dinamicamente às novas condições. Qualquer destas posições extremas prescinde da responsabilidade humana, até porque o conceito de responsabilidade não entra na equação, já que se trata apenas de um movimento natural, sem intervenção de liberdade humana. 

Se assumirmos, pelo contrário, que os humanos são livres e que foi a sua ação, fruto de decisões problemáticas, a conduzir a esta situação, apenas resta acreditar, ou não, na possibilidade de alterar a situação. Mais uma vez, os mais pessimistas (ou realistas?) consideram já não ser possível alterar nada significativamente e, portanto, que estamos condenados a desaparecer. Restar-nos-ia aproveitar os últimos anos, eventualmente na luta pela sobrevivência, recuperando a barbárie primitiva da lei da selva (o que até parece coincidir com novos movimentos geopolíticos). Os mais otimistas, pelo contrário, consideram que as descobertas tecnológicas, as mesmas que nos permitiram conduzir a terra à situação em que se encontra, nos permitirão resolver o problema. Os factos, contudo, parecem não confirmar, pelo menos para já, que essa solução esteja à vista. 

Se nos assumimos verdadeiramente responsáveis pelo que está a acontecer, resta-nos assumir também a responsabilidade por uma solução, mesmo que seja difícil. Da responsabilidade como culpa deveremos passar à responsabilidade como cuidado – precisamente enquanto responsabilidade pela terra, na qual se inclui a responsabilidade pelas condições de vida das gerações futuras. É nesse contexto que situa a responsabilidade das empresas pela sustentabilidade do planeta e pelo seu futuro – dos humanos e dos não humanos. Porque as empresas, precisamente enquanto empreendimentos humanos, representam toda a ação da humanidade, para além de ser no campo empresarial onde se situa o impacto mais significativo sobre as condições do planeta. 

Isso implica, do ponto de vista fundamental, assumir que não somos um fator inerte num processo natural em curso, mas que as nossas decisões são verdadeiramente livres e impactantes. Implica também acreditar que ainda é possível, através da alteração de comportamentos, alterar a situação aparentemente catastrófica em que nos encontramos. 

Do ponto de vista pragmático, a questão da sustentabilidade deixou de ser opcional: eventualmente por convicção pessoal dos gestores ou por estratégia de marketing. Também não é apenas moda, ou forma de corresponder às exigências legais. Trata-se, em realidade, de uma questão de sobrevivência e, nesse sentido, da mais profunda responsabilidade humana. Bem vistas as coisas, estamos no nível mais importante da atividade humana, pois que importaria ter muito êxito, ou muitos lucros, se não tivermos futuro? 

Ao mesmo tempo, o processo dramático que atravessamos tem contribuído para ganharmos consciência de que o futuro das condições de vida da humanidade no planeta depende do futuro dos outros agentes planetários, seres vivos ou não. Por isso, a sustentabilidade não se refere apenas à humanidade, mas ao conjunto do planeta, em todas as suas dimensões e em todos os seus elementos. Também por isso, a atuação responsável e sustentável das empresas não se pauta apenas pelo cuidado com os humanos, também do futuro, mas pelo cuidado com todos os elementos do planeta e com o equilíbrio da relação entre eles. Isso é o que significa, verdadeiramente, cuidar da Casa Comum. E parece não haver outro caminho. 

 

João Manuel Duque, Professor na Católica-Lisbon School of Business and Economics