A importância dos liderados no processo de liderança levou a que algumas teorias abandonassem o "lidercentrismo" e passassem a considerar o contributo dos seguidores para o desempenho dos líderes, mostrando a relação dinâmica entre as duas partes. A teoria das trocas líder-membros é um dos modelos que melhor explica esta relação diádica: o comportamento dos líderes determina as reações dos seguidores e estas, por seu lado, influenciam o desempenho do líder, num ciclo contínuo.

Os comportamentos dos líderes não são a expressão direta das suas características pessoais. Resultam também da forma como os seguidores os interpretam e respondem, e da forma como o líder, por sua vez, reage aos seguidores. Sabe-se, por exemplo, que nas organizações uma relação de cooperação entre as duas partes aumenta o desempenho das equipas, reforça o apoio mútuo e a eficácia na resolução dos problemas, e que quando os colaboradores têm pensamento crítico e usam a inteligência emocional, melhoram os processos de grupo.

Nas lideranças tóxicas há também uma relação diádica com os subordinados que ajuda a compreender a dinâmica dessas interações. A maneira como os comportamentos do líder são percebidos, produz reações diferentes nos colaboradores. Podem lidar com a situação utilizando estratégias focadas nos factos ou nas emoções, estratégias de confronto ou de evitação. Dependendo da maneira como a estratégia dos colaboradores é percebida pelo líder, o comportamento tóxico pode ser reforçado, tornando-se mais agressivo e retaliatório, ou mais construtivo. Não está apenas em causa a personalidade do líder, mas a interação do líder com os colaboradores e a situação.

Centrar a liderança na pessoa dos líderes, restringe o estudo da liderança ao conhecimento dos traços de personalidade, dos sucessos e fracassos de figuras de referência, e àqueles que desempenham funções formais de liderança. Acentua, nos líderes, a convicção de que o desenvolvimento em liderança é um caminho solitário de mudança que podem percorrer individualmente, impedindo-os de fazer uma abordagem integrada que leve a trabalhar a interação com os subordinados, as relações dentro da equipa e com os outros parceiros.

No plano prático, a crença de que a liderança é apenas acerca dos líderes, é um dos fatores que contribui para reforçar os níveis de reconhecimento e recompensa que recebem, contribuindo para cavar o fosso salarial que os separa dos outros colaboradores. Alimenta a arrogância, o narcisismo, e a distância social e emocional aos outros.

Uma visão da liderança centrada nos líderes concentra os investimentos em formação neles e nos que podem vir a desempenhar os mesmos lugares, esquecendo o desenvolvimento das equipas e unidades que lideram. Acima de tudo, pode dificultar o justo reconhecimento dos que contribuem para o sucesso das equipas no terreno, incluindo as lideranças informais que ocorrem entre colegas de equipa e que podem ser decisivas para a sua coesão e desempenho.

A influência dos seguidores sobre o comportamento dos líderes é também relevante na cena política. As eleições presidenciais que agora decorrem mostram como os eleitores também exercem a sua liderança sobre... os líderes. As sondagens bem como o impacto público de notícias que põem a sua reputação em causa, constituem um feedback social que ativa nos candidatos mecanismos psicológicos aos níveis cognitivo, motivacional e das tomadas de decisão, que condicionam as suas reações.

A teoria da prospetiva, formulada pelo nobel Daniel Kahneman, ajuda a compreender uma das reações mais frequente dos candidatos: as pessoas, em ambientes de incerteza, estão mais dispostas a correr riscos para evitar perdas do que para obter ganhos. Isto explica as reações de maior risco que os líderes tendem a assumir, quando as sondagens lhes são desfavoráveis ou quando ocorrem notícias que podem comprometê-los, fazendo mudanças bruscas de discurso, propostas inesperadas e declarações inusitadas e comprometedoras para os seus objetivos. Estas reações têm um impacto importante nos objetivos das candidaturas.

Sondagens favoráveis e novos apoios reforçam a perceção de autoeficácia, o sentimento de autocontrolo e a confiança na possibilidade de se obterem metas mais ousadas, podendo levar à formulação de expectativas pouco realistas. Outro fenómeno que também ocorre são as heurísticas de disponibilidade: sondagens mais recentes, com dados a que se atribui particular credibilidade, podem tornar-se cognitivamente dominantes, dando origem a generalizações otimistas que se sobrepõem a outros dados mais rigorosos e credíveis.

As sondagens desfavoráveis levam ao surgimento de mecanismos de redução da dissonância. Para manterem o conceito de si próprios e a consistência das suas teses com os novos dados, os líderes procuram uma justificação para o feedback desfavorável, desvalorizando a validade da sondagem ou alterando a mensagem para a tornar consonante com as tendências do eleitorado.

Isto mostra-nos como, também na cena política, os liderados têm um papel central no processo de liderança, desencadeando mecanismos psicológicos nos líderes que, embora pouco aparentes, são determinantes para os seus objetivos.

Luís Caeiro, Professor na CATÓLICA-LISBON