Vivemos rodeados por comunicação constante, veloz e dispersa. No entanto, tal não significa maior informação. Na verdade, a desinformação circula com facilidade, sobretudo nos canais informais. E este cenário é semelhante dentro das organizações: maior troca de mensagens não significa melhor comunicação.

Cada emissor está no seu palco, a proferir a sua mensagem. Escuta-se menos. Parece haver menos empatia, menor vontade para compreender o outro, e para acolher a diversidade de perspetivas. A comunicação sempre foi veículo de controlo e poder. Há uma guerrilha pela palavra, por quem fala primeiro, por quem impõe a sua versão como sendo a realidade, sem discussão ou contraposição. Mas nunca foi, nem nunca será, tão linear. A comunicação é, antes de mais, partilha e relação.

Neste contexto de filtragem de opiniões e segmentação do discurso, surge o tabu. O tabu é a assunção de que um determinado tópico é proibido, sobre o qual não se pode ou deve falar. É uma imposição de poder, que preserva a autoridade e a estabilidade (de alguns, tipicamente acima na hierarquia).

O tabu precede o silêncio. Reconhecemos que um determinado tema é sensível, e calamo-nos. Ou então, o tabu é um nível seguinte ao silêncio: primeiro escolhemos não falar, depois assumimos que o tema está interdito. Tanto o silêncio leva ao tabu como o tabu gera silêncio. Estão ligados, como vasos comunicantes. E podem ser direta ou indiretamente instituídos.

Os líderes detêm um papel decisivo. Quando evitam certos temas, reagem com desconforto a perguntas difíceis, ou punem subtilmente quem desafia o status quo, estão a legitimar o tabu. Mesmo em silêncio, comunicam: demonstram que não é seguro falar. Um olhar reprovador ou uma mudança de assunto já são mensagens claras de que há limites implícitos. Quando um líder assume com naturalidade temas delicados, dá espaço à dúvida e valoriza opiniões divergentes, envia uma mensagem clara: “aqui, pode falar-se”. E isso não fragiliza a autoridade, pelo contrário, fortalece a confiança.

O tabu molda igualmente a cultura organizacional. O que não se diz também constrói cultura. O que não se pode perguntar, o que se sussurra nos corredores, o que toda a gente vê, mas ninguém comenta. Tudo isso faz parte da arquitetura simbólica da organização. Os tabus organizacionais criam zonas de sombra, onde o poder se protege, onde os erros se escondem, onde o medo se propaga. Com o tempo, normaliza-se a ideia de que “é melhor não tocar nesse assunto”, o que acaba por definir o comportamento coletivo.

E não se inova com medo. Se não me sinto seguro para levantar dúvidas, discordar ou assumir um erro, também não me atrevo a propor algo novo. Onde há tabu, não há erro visível, nem pergunta que desafia, logo, não há aprendizagem. O tabu sufoca o risco, e sem risco, não há criatividade.

Como quebramos, então, o ciclo? Devemos criar espaços seguros, onde se valoriza a vulnerabilidade, o erro construtivo e a crítica que respeita. São necessários líderes que escutam antes de responder, que dizem “não sei” quando não sabem, e que acolhem com seriedade o que é dito nas entrelinhas. Mas também se exigem pequenos atos de resistência: pessoas que ousam perguntar, que nomeiam o elefante na sala, ou que propõem conversas difíceis. Sempre que o fazem, estão a trazer luz para a sombra.

E será que há tabus saudáveis? Nem todos os tabus são nocivos. Há temas que pedem sensibilidade, privacidade ou maturidade na sua abordagem. O tabu pode funcionar, por vezes, como uma barreira de proteção, respeitando, por exemplo, experiências traumáticas. Mas mesmo nesses casos, o tabu deve ser transitório e conscientemente gerido. Quando se torna estrutural, deixa de proteger e começa a reprimir.

Ao contrário do que muitos consideram, o tabu e o silêncio são igualmente comunicação. Silenciar é comunicar. O silêncio pode ser cúmplice ou resistência, pode conter medo ou dignidade. O tabu é a formalização simbólica desse silêncio. Negar que são comunicação é ignorar a sua força. Para compreender uma cultura, é tão importante escutar o que se diz, como perceber o que nunca se diz, e porquê.

Assim, uma cultura sem tabus é uma cultura de transparência. Uma cultura que trabalha ativamente para que não haja temas proibidos é uma cultura onde a confiança circula. Onde não se varrem os assuntos difíceis para debaixo do tapete, mas se dissecam com respeito e maturidade. É uma cultura onde se pode dizer “não concordo”, “não entendi”, “tal não me parece justo”, e ser-se ouvido. E isso não significa caos, nem ausência de limites. Significa, sim, maturidade coletiva. E talvez seja esse o verdadeiro sinal de uma organização adulta.

Duarte SilvaDevelopment Manager Executive Education na CATÓLICA-LISBON