Há um dia, algures em agosto, em que deixamos de contar os dias que faltam e começamos a contar os dias que já passaram. É o dia em que as férias começam a acabar, muito antes de, na realidade, terminarem.
O que torna esta mudança desconfortável não é o regresso em si. É a sensação de que estamos prestes a devolver algo valioso: aquelas horas não programadas em que a mente pode finalmente divagar, estabelecer ligações e, ocasionalmente, chegar a algum lugar útil. Tendemos a encarar isto como um efeito secundário de estar de férias, e não como um recurso com valor próprio.
Os gregos tinham uma palavra para isso. Tanto para Platão como para Aristóteles, o lazer não era a ausência de atividade, mas a liberdade da necessidade de trabalhar apenas para garantir as necessidades básicas. Consideravam-no um pré-requisito para alcançar a forma mais elevada de realização humana. A palavra era scholê e, de forma bastante apropriada, está na origem da nossa palavra “escola”. Aristóteles considerava ter scholê uma parte essencial de uma boa cidadania, com verdadeiro peso político: uma vida inteiramente ocupada com atividades que consomem tempo não deixava espaço para a reflexão que a vida pública exigia. A ideia não era que descansar é simplesmente agradável, mas que uma comunidade sem pessoas com tempo é uma comunidade incapaz de pensar bem sobre si própria.
É tentador interpretar isto como um luxo antigo, indisponível para quem tem uma lista de tarefas do tamanho de uma lista de compras, cheia de prazos. Mas a leitura mais útil não é aspiracional: scholê não significa não ter obrigações. Significa proteger uma categoria de tempo que não serve nenhum objetivo imediato e cujo valor reside precisamente nisso.
Duas vezes por ano, Bill Gates retirava-se para uma cabana isolada para ler, pensar e refletir sobre o panorama geral, afastado das decisões minuciosas do trabalho diário. Um desses retiros, em 1995, deu origem a um memorando dirigido à equipa executiva da Microsoft que antecipava a mudança rumo à Internet e defendia que a empresa desenvolvesse o seu próprio navegador. A questão não é que todos os líderes precisem de uma cabana. É que, à escala de Gates, o tempo de reflexão raramente é deixado ao acaso. É agendado, protegido e tratado como trabalho, e não como a ausência dele.
A maioria das organizações tem dificuldade em fazer isto. O tempo para pensar sobrevive apenas onde o calendário deixa espaços vazios, o que, cada vez mais, significa que ele simplesmente não sobrevive. As reuniões têm um espaço, a estratégia tem um espaço, questionar os nossos próprios pressupostos fica com aquilo que sobra, e, normalmente, sobra muito pouco. Sejamos honestos: este não é um simples problema de gestão de horários. Quando a reflexão é comprimida desta forma, aquilo que tende a desaparecer primeiro é a criatividade.
As organizações que levamos a sério no campo da sustentabilidade tendem a compreender uma versão desta ideia: a atividade ilimitada é uma escolha, não uma lei da natureza, e os períodos de afastamento não são o oposto do desempenho, são, muitas vezes, uma condição para que ele exista. Períodos de recuperação são necessários para a produtividade e funcionam melhor quando não são impostos, isto é, quando não resultam de exaustão ou daquilo a que chamamos “burnout”, mas são escolhidos.
Nada disto significa levar agosto a sério e os outros onze meses menos. Significa precisamente o contrário: tratar a clareza que surge numa praia em agosto, ou durante uma semana sozinho numa cabana, como informação que vale a pena proteger numa quarta-feira de novembro, de forma deliberada e inscrita no calendário, em vez de deixada para o tempo que, por acaso, venha a sobrar.
Tenha uma excelente e impactante semana!
Matilde Campos da Cruz
Investigadora no Center for Responsible Business & Leadership, Católica-Lisbon SBE