Nomear políticos para os quadros cria valor para as empresas? Depende do nível de corrupção no país, sugere novo estudo científico

Quarta, Agosto 5, 2020 - 11:37

Nomear um politico para um quadro empresarial é uma prática comum em muitos países, mas quanto valor é que essa nomeação gera de facto para a empresa? Em certos países, quase dois terços das maiores empresas nomearam na última década alguém com um historial de atividade política para os seus quadros, mas a questão continua no ar sobre se isso é de facto benéfico para a empresa.

Omar El Nayal, investigador na Católica Lisbon School of Business and Economics, foca-se neste tema no seu novo estudo publicado no Journal of Management, onde coloca a questão: a perceção de corrupção na sociedade afeta como os investidores veem a nomeação de um político para o quadro de uma empresa?

A resposta é mais complexa do que talvez se pensaria, mas uma coisa torna-se clara: os investidores tendem a reagir de forma positiva à nomeação de um político para o quadro de administradores quando a empresa opera numa indústria altamente regulada, (e, portanto, depende mais das leis e regulamentações do país), e opera num país com níveis mais elevados de corrupção. É nesse tipo de empresa – regulada e num país com níveis superiores de corrupção como a Espanha ou a Itália – que uma pessoa com ligações políticas pode trazer mais valor a uma empresa. Já em países com menor corrupção, como a Suécia ou a Dinamarca, os investidores não mostram esperar muito valor da nomeação de políticos para os quadros de empresas reguladas.

“As ligações políticas são, em geral, boas para as empresas ou não são?”, pergunta Omar El Nayal durante uma entrevista sobre o seu artigo científico, Ties That Bind and Grind? Investor Reactions to Politician Appointments to Corporate Boards. “Não é que sejam sempre boas ou sempre más – então a pergunta é, em que situações é que são boas?” A literatura anterior sobre este tema não dá uma resposta clara. Para tentar perceber o assunto, o professor El Nayal passou vários anos a colecionar um conjunto de dados que abrange 14 países e as nomeações para o quadro de mais de mil empresas. Depois, olhou para as reações do mercado de valores à nomeação de políticos nestes países, procurando explorar quando é que estas nomeações resultam em respostas positivas ou negativas dos investidores.

Há muitos fatores em jogo na forma como os investidores veem a nomeação de um político para o quadro de uma empresa. Um deles é a corrupção. “O que vemos aqui é que a corrupção é como uma faca de dois gumes para uma empresa com ligações políticas”, explica Omar El Nayal. O que o seu artigo, em co-autoria com Hans van Oosterhout e Marc van Essen, vem demonstrar é que em países com níveis mais altos de corrupção percebida, os investidores ficam satisfeitos quando veem uma empresa regulada a nomear um político para o seu quadro. O político conhece bem os processos legislativos e pode usar as suas ligações para influenciar as decisões políticas em favor da empresa.

No entanto, nestes mesmos países, um político a mais no quadro e os investidores começam a ficar nervosos. Quando as empresas já têm políticos no quadro de administradores, nomear ainda mais políticos pode ser visto com desconfiança pelos investidores, que não veem muito valor acrescentado em mais ligações políticas, e podem até ficar preocupados que uma coligação dominante de políticos na administração possa procurar usar a empresa para o seu ganho pessoal ou político. “Sob certas condições, a corrupção somada às ligações políticas pode ser problemática para uma empresa,” acrescenta Omar El Nayal. “Com a corrupção, as ligações políticas podem trazer benefícios, mas também podem, sob certas circunstâncias, apresentar riscos significativos. Em países com menos corrupção, não existem estes extremos – não é de esperar ter benefícios muito grandes com as ligações políticas, mas também não haverá muitos custos.”

Os 14 países no conjunto de dados de Omar El Nayal são algumas das economias mais desenvolvidas do mundo, selecionadas devido à qualidade e disponibilidade dos dados necessários para tirar este tipo de conclusões. “Se mesmo entre alguns dos países mais desenvolvidos do mundo vemos que a perceção de corrupção tem um impacto significativo no valor das empresas, imagine-se se replicássemos o estudo com casos mais extremos do resto do planeta,” comenta Omar El Nayal. A perceção pública da corrupção foi medida pela Transparência Internacional no seu Corruption Perceptions Index, no qual os investigadores se basearam para o seu trabalho.

Omar El Nayal é Professor Auxiliar na Católica Lisbon School of Business and Economics desde 2019. Obteve o seu doutoramento em Gestão Estratégica e Empreendedorismo, assim como dois graus de mestre, na Rotterdam School of Management (RSM), na Holanda. Após completar a sua licenciatura em Finanças na American University do Cairo, trabalhou ainda como analista no Ministério das Finanças do Egito.

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