A CATÓLICA-LISBON apresentou no dia 20 de março as conclusões do quarto relatório do Observatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), assinalando o culminar de quatro anos de trabalho conjunto entre academia, empresas e instituições, num momento particularmente relevante para a reflexão sobre o papel da sustentabilidade no contexto atual. O evento reuniu, na CATÓLICA-LISBON, líderes empresariais, académicos e representantes de organizações internacionais para analisar o progresso alcançado e discutir os desafios e oportunidades que marcam a reta final da Agenda 2030.

Na abertura, Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa, destacou a importância deste relatório enquanto contributo para compreender a evolução da integração dos ODS no tecido empresarial português, “para identificar boas práticas e reforçar o compromisso coletivo com uma economia mais sustentável, inclusiva e responsável”, sublinhando que a sustentabilidade está longe de ser uma tendência passageira. Os dados apresentados pelo Observatório confirmam essa realidade com 82% das grandes empresas e 67% das PMEs a consideram a integração dos ODS relevante para a sua estratégia, refletindo uma mudança estrutural na forma como as organizações encaram a criação de valor. Este trabalho, desenvolvido em parceria com a Fundação “la Caixa” e o Banco BPI, resulta de um esforço contínuo de análise, capacitação e colaboração, posicionando o Observatório como um verdadeiro catalisador de mudança e um instrumento de apoio à tomada de decisão informada.

Ao longo dos últimos quatro anos, mais de 60 grandes empresas e 130 PMEs integraram esta iniciativa, contribuindo para a recolha de uma grande quantia de dados, a realização de mais de 140 entrevistas e a análise de mais de 250 relatórios de sustentabilidade. Este esforço permitiu não só identificar desafios estruturais, como a capacitação, a operacionalização e o alinhamento estratégico dos ODS, mas também documentar cerca de 200 boas práticas, demonstrando que o caminho para uma economia mais sustentável está a ser construído de forma concreta. Mais do que números, o Observatório afirmou-se como uma plataforma de conhecimento, aprendizagem e partilha, com impacto direto nas estratégias empresariais, ajudando organizações a alinhar prioridades, medir progresso e transformar intenções em ação.

Na sua intervenção, Filipe Santos, Dean da CATÓLICA-LISBON, enquadrou o papel dos ODS num contexto global em que o que é prioritário muda rapidamente, alertando para o risco de dispersão perante o “ruído” económico, político e social. “À medida que as prioridades mudam e o ruído à nossa volta aumenta, acabamos por nos perder e quando nos perdemos, perdemos o sentido da essência. A essência é que, há 15 anos, a humanidade reuniu-se (…) e afirmou que, se queremos um desenvolvimento sustentável, (…), precisamos de nos concentrar nestas 17 metas e nos seus indicadores. Precisamente por isso, não podemos dar-nos ao luxo de nos distrairmos com o ruído e a agitação do dia-a-dia. Temos de manter o foco para garantir que estamos a avançar na direção desses objetivos. Porque, se nos concentrarmos nas questões de curto prazo que parecem críticas no momento e perdermos de vista o essencial, acabaremos por nos perder na mesma”, sublinhou o Dean da CATÓLICA-LISBON. Neste contexto, destacou ainda o papel determinante das empresas como principal alavanca para a concretização da Agenda 2030 nos próximos anos.

A dimensão internacional do debate foi aprofundada pela intervenção de Wim Vermeulen, Professor da Vlerick Business School e autor especializado em comunicação responsável e credibilidade empresarial, que reforçou a importância das decisões empresariais e institucionais serem fundamentadas em propósito e responsabilidade climática. Vermeulen enfatizou a necessidade de distinguir entre distrações momentâneas e prioridades estruturais, usando a metáfora dos “dois lobos” para ilustrar que cabe a cada organização escolher que valor alimentar, se o lobo da exploração imediata ou o lobo do legado sustentável. Vermeulen ressaltou ainda o papel estratégico da adaptação climática como instrumento de gestão de risco, a relevância de uma comunicação corporativa transparente e credível, e a singularidade dos valores europeus de solidariedade, coesão e respeito à ciência, que permitem às empresas e aos cidadãos manter o foco em soluções de longo prazo mesmo em tempos de incerteza.

Também Paul Polman, antigo CEO da Unilever, através de uma mensagem em vídeo, reforçou a ideia de manter o foco estratégico, destacando a urgência de integrar a sustentabilidade como motor de competitividade nas empresas. Polman salientou que, hoje, a transição não é movida por ativismo, mas pela economia, curvas de custo, competitividade e pelo risk pricing. A sua mensagem sublinha que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma obrigação ética ou moral, tornando-se um fator crítico de valor, crescimento e liderança empresarial, e que são necessárias decisões corajosas para transformar intenções em resultados concretos.

O encerramento do evento contou com a intervenção de Jorge Moreira da Silva, Diretor Executivo da UNOPS/Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos, que refletiu sobre o momento atual da Agenda 2030. Num contexto global marcado por múltiplas crises interligadas, destacou a importância de não adiar a ação em matéria de desenvolvimento sustentável, mesmo perante desafios geopolíticos e económicos. Pelo contrário, defendeu que é precisamente neste contexto que a agenda se torna ainda mais relevante. Sublinhando que o desenvolvimento sustentável não se limita à dimensão ambiental, reforçou princípios como a interdependência, a cooperação e a solidariedade intergeracional, alertando para o desfasamento atual face às metas: apenas um terço dos objetivos está em linha de cumprimento e o mundo continua longe da trajetória necessária para limitar o aquecimento global a 1,5°C.“Estamos num momento em que é avançar ou recuar, e não há espaço para hesitação”, afirmou, evidenciando a urgência de acelerar a implementação das soluções. Apesar dos desafios, destacou que as soluções estão ao alcance e que passam pelo alinhamento do financiamento global com o desenvolvimento sustentável, reformas políticas, capacitação para concretizar os objetivos, avaliação e aprendizagem e, por último, por uma “reforma das instituições internacionais, que olhe para os bens públicos globais, na sua regulação, na sua proteção e no seu financiamento, e não apenas na lógica territorial, que já não é a lógica que corresponde à dimensão dos problemas e à capacidade de os resolver”.

Desta forma, o evento marcou não apenas a apresentação de resultados do 4º relatório, mas também o lançamento de um novo ciclo do Observatório, focado na aceleração da ação e na preparação do período pós-2030. Num contexto de crescente complexidade global, o evento evidenciou que o desenvolvimento sustentável exige compromisso contínuo, colaboração efetiva e liderança capaz de transformar conhecimento em ação concreta, reforçando o papel das empresas como agentes centrais de mudança.