No passado dia 15 de maio foi assinada a primeira encíclica, e consequentemente o documento programático, do pontificado de Leão XIV. Demorou a surgir (apenas o Papa Paulo VI foi mais tardio, em 1964) e é o segundo maior documento deste género, depois da Evangelii Gaudium do Papa Francisco, em 2013. A data simbólica escolhida, o dia do mês da Rerum Novarum de Leão XIII, publicada em 1891 e origem da Doutrina Social da Igreja, revela claramente o propósito não apenas do texto, mas também deste pontificado. Tal torna-se ainda mais evidente no subtítulo: “sobre a salvaguarda da pessoa humana no tempo da inteligência artificial”. Esta é a missão específica que o Papa assume.
O texto constitui uma breve enciclopédia de temas em torno da questão mais premente da atualidade, abrangendo desde o emprego à educação, da família à política, da saúde e do jornalismo ao crime e à guerra. Na forma como aborda os perigos que hoje dominam obsessivamente o debate público, a encíclica distingue-se por duas características peculiares. Em primeiro lugar, a coerência sistémica: numa era de especialização e fragmentação, encontramos uma rara consistência em que fenómenos novos e estranhos são harmoniosamente integrados numa doutrina bem estruturada que atravessa dois milénios. Em segundo lugar, a atitude paradoxal do amor radical própria dos discípulos de Jesus. Os problemas mais espinhosos do mundo são tratados por aqueles que “dão a outra face” e “rezam por aqueles que os perseguem”. O resultado é uma tentativa humilde de propor uma “civilização do amor na era digital” (188), algo que poderá muito bem constituir a última oportunidade da humanidade.
O que significa isto para as empresas reais que operam em mercados implacáveis? Na verdade, muitas coisas, que apenas uma leitura atenta e refletida pode revelar. Um pequeno exemplo da forma prática e detalhada como o documento se expressa encontra-se na secção dedicada à “dignidade do trabalho num tempo de transição digital”:
«Em termos concretos, orientar a economia para a dignidade significa, também na era da IA, adotar alguns estáveis critérios de ação. Em primeiro lugar, a transparência e a responsabilidade: quando os dados e os algoritmos influenciam na concessão do crédito, na seleção de pessoal, no acesso a serviços ou oportunidades, é necessário que as decisões sejam compreensíveis, contestáveis e sujeitas a controle, para que a pessoa não seja reduzida a um mero perfil. Em segundo lugar, a inclusão e o acesso: os benefícios da inovação devem ser acompanhados por investimentos em competências, infraestruturas e serviços essenciais, para que a tecnologia não aumente o fosso entre quem tem e quem não tem. Por fim, medidas de equidade: fiscalidade, proteções sociais e políticas industriais devem corrigir os desequilíbrios criados pela concentração de riqueza e poder. Estes critérios não são um travão à inovação: tornam-na, na realidade, viável e humana.» (164)
No seu conjunto, trata-se de um texto muito relevante e pragmático, repleto de análises lúcidas, denúncias contundentes e sugestões e conselhos concretos. Mas o contributo mais inesperado e útil é a afirmação da esperança. Num tempo em que todos parecemos correr atrás de uma revolução acelerada e impiedosa, o Papa Leão mostra um caminho de harmonia, decência e sensatez. Hoje, isso é simultaneamente raro e vital.
João César das Neves, Professor na Católica Lisbon School of Business & Economics.