A longevidade feminina não pode significar apenas viver mais tempo – tem de significar viver com qualidade de vida.

As mulheres vivem, em média, mais tempo do que os homens. Em Portugal e na Europa, a esperança média de vida é de 85 anos para as mulheres e 79 para os homens. No entanto, raramente se discute o facto de que as mulheres vivem mais anos, mas com problemas de saúde e enfrentam desigualdades significativas no acesso a tratamentos.

O tema ganhou destaque recentemente, tanto pelo Dia Internacional da Mulher (no início deste mês), como pela conferência Century Summit, do Stanford Center on Longevity (na qual participei), onde a longevidade feminina foi amplamente debatida.

Enquanto mulher e investigadora, este tema interessa-me profundamente.

A desigualdade continua evidente: a medicina foi, historicamente, concebida com base no corpo masculino, e os estudos clínicos têm frequentemente ignorado as diferenças fisiológicas femininas, tendo os testes em mulheres sido iniciados apenas muito tardiamente. O impacto pessoal dessa realidade tornou-se claro quando uma mulher próxima de mim foi diagnosticada com uma doença autoimune — condição que, como descobri nessa altura, afeta maioritariamente as mulheres: 80% dos doentes autoimunes são do sexo feminino.

O livro Mulheres Invisíveis, de Caroline Criado Perez, denuncia o viés de género na saúde. Durante décadas, as mulheres foram excluídas de ensaios clínicos devido ao receio de que as flutuações hormonais complicassem os resultados. Apenas em 1993, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA passou a exigir a inclusão de mulheres nesses estudos. Essa exclusão criou lacunas perigosas no conhecimento médico. As doenças cardíacas, por exemplo, manifestam-se de forma distinta nas mulheres, contudo a investigação tem-se centrado predominantemente nos sintomas apresentados pelos homens. Como resultado, muitas mulheres que sofrem ataques cardíacos são subdiagnosticadas ou tratadas de forma inadequada. Atualmente, menos de 20% dos cardiologistas são mulheres, o que perpetua esta disparidade.

O viés de género repercute-se igualmente nos tratamentos médicos. A dosagem de muitos medicamentos é calibrada com base em parâmetros masculinos, o que torna as mulheres mais suscetíveis a efeitos secundários. Um exemplo claro foi o caso do Ambien, um fármaco para insónias: só décadas após o seu lançamento se descobriu que afetava as mulheres de maneira diferente, levando a uma revisão das dosagens. Outro problema relevante diz respeito à forma como a dor reportada por mulheres é tratada. Quando uma mulher se queixa de dor, é mais provável que receba sedativos em vez de analgésicos, enquanto os homens tendem a ser alvo de intervenções terapêuticas mais intensivas.

A pandemia de COVID-19 expôs outra desigualdade: os equipamentos de proteção individual (EPI) foram desenhados para corpos masculinos, deixando muitas profissionais de saúde com material mal ajustado e menos eficaz.

Para além das questões médicas, há desafios económicos e sociais que agravam o problema. As mulheres não só vivem, em média, mais anos com problemas de saúde, mas também enfrentam desvantagens financeiras acumuladas ao longo da vida. O papel de cuidadora, assumido por muitas ao longo da vida, acarreta consequências significativas a nível físico, emocional e económico. A desigualdade salarial e as interrupções de carreira dificultam a sua segurança financeira na reforma — um período que, paradoxalmente, tende a ser mais prolongada para as mulheres.

Criado Perez alerta para a necessidade de uma abordagem médica mais inclusiva A investigação científica deve considerar as diferenças biológicas entre sexos e assegurar uma maior representatividade feminina nos estudos.  Só assim poderemos garantir um sistema de saúde verdadeiramente equitativo, que ofereça tratamentos eficazes para todos.

A longevidade feminina não pode significar apenas viver mais tempo – tem de significar viver com qualidade de vida. Precisamos de maior consciência desta realidade e de mais investigação isenta de enviesamentos. Como mulher que estuda a longevidade, é encorajador ver progressos, mas ainda há um longo caminho a percorrer para tornar as mulheres mais visíveis na investigação e na medicina.

Céline Abecassis-Moedas, Professora da CATÓLICA-LISBON