O insucesso comercial raramente resulta de um único erro. Na maioria dos casos, é consequência de um conjunto de decisões desalinhadas, tomadas seja ao nível estratégico, operacional ou humano.

Quando as vendas falham, o problema quase nunca está apenas na equipa comercial. Está, muitas vezes, na forma como a organização pensa — ou deixa de pensar — o mercado.

Um dos erros mais frequentes reside na definição de metas sem verdadeira ancoragem ao mercado. Ocorre quando a administração fixa objetivos ambiciosos com base em projeções internas ou desejos dos acionistas, enquanto a área comercial, que conhece o terreno, percebe que os números são dificilmente alcançáveis. E quando não existe sintonia entre estratégia e realidade, instala-se a desmotivação. Não é difícil perceber que um vendedor que parte para o terreno convicto de que a meta é impossível não falha por incompetência — falha porque o sistema o colocou numa posição de descrença. A médio prazo, a consequência é previsível: quebra de compromisso, desgaste e rotatividade.

Outro erro estrutural é a ausência de verdadeira interligação entre marketing e área comercial. Em vez de funcionarem como duas dimensões complementares da mesma proposta de valor, operam frequentemente em silos, com imputação mútua de responsabilidades. Se o marketing acusa as vendas de não saberem fechar negócios, as vendas acusam o marketing de gerar oportunidades pouco qualificadas. Esta tensão revela algo mais profundo: falta de visão integrada do cliente. O mercado não distingue departamentos — distingue experiências. Quando a promessa comunicada não coincide com a entrega, a confiança é afetada e as vendas ressentem-se.

Ainda assim, a dimensão humana é a mais crítica. Não se trata apenas de ausência de visão estratégica, mas da recusa em ver o mercado como ele é. Muitas decisões de produto assentam em crenças internas, perceções subjetivas ou modas momentâneas, ignorando dados concretos. A incompreensão dos ciclos de vida dos produtos conduz a erros graves. Produtos em maturidade são tratados como se estivessem em declínio; apostas desproporcionadas são feitas em soluções com potencial incerto; recursos são desviados para novidades que exigem forte investimento em notoriedade sem garantia de retorno. O resultado é um aumento estrutural de custos, pressão permanente sobre o marketing e dispersão estratégica.

Por outro lado, insistir em ajustar a proposta apenas em função do que “o mercado está a fazer” é outro equívoco. Se todas as empresas reagirem da mesma forma às tendências, os produtos tornam-se indiferenciados. Quando o preço se transforma no único fator competitivo, a organização entra numa lógica destrutiva. Reduzir custos de forma indiscriminada com o intuito de sustentar o negócio compromete a experiência e corrói valor.

Imagine-se um restaurante que, para poupar alguns custos, substitui copos de vidro por plástico, reduz a qualidade dos talheres e desliga o ar condicionado. Pode baixar preços no curto prazo, mas compromete a perceção de qualidade e a marca destrói valor. Não é diferente em qualquer outro setor de atividade. Por uma simples razão: o cliente percebe.

Existe, porém, um erro ainda mais silencioso e estrutural: a falta de uma cultura genuinamente orientada para o cliente. Muitas decisões são tomadas a partir do gabinete, com base em pressupostos e presunções sobre o que o mercado valoriza. Não se visitam clientes, não se observa o contexto real de utilização, não se escuta ativamente quem decide e quem influencia a compra. Constrói-se uma narrativa interna confortável, mas desligada da realidade. Criam-se apresentações impecáveis, relatórios sofisticados e dashboards detalhados — mas falta o contacto direto com o terreno. E quando isso acontece, a empresa passa a acreditar nas suas próprias convicções como se fossem factos. É aqui que surge a metáfora inevitável: ninguém questiona, ninguém confronta, ninguém valida. E, no entanto, o mercado já percebeu que o rei vai nu.

Uma empresa verdadeiramente orientada para o cliente não decide apenas com base em dados internos; valida hipóteses, testa propostas, escuta objeções e ajusta continuamente. Não confunde opinião com evidência.

As vendas falham quando a organização falha na leitura integrada do mercado. Não é apenas uma questão de técnica comercial; é uma questão de alinhamento estratégico, coerência de posicionamento, disciplina na gestão do portefólio e, sobretudo, humildade para sair do gabinete e enfrentar a realidade.

Vender é o resultado visível de uma cadeia de decisões invisíveis. Quando essas decisões são tomadas de costas voltadas para o cliente, o mercado limita-se a devolver a consequência. É caso para dizer que mais cegos do que aqueles que não veem, são aqueles que não querem ver.

Marcas fortes demoram anos a construir e muito pouco tempo a definhar.

Pedro Celeste, Professor na CATÓLICA-LISBON