Uma das principais histórias nos mercados financeiros no último ano foi a subida do preço do ouro em cerca de 70%, atingindo valores recorde. Houve episódios de milhares de pessoas em filas de espera durante horas para adquirir este ativo de refúgio. Este comportamento levanta interrogações sobre o estado da economia mundial: como interpretar esta subida e qual a real utilidade do ouro para os investidores?
A causa mais apontada para a valorização tem sido o risco geopolítico, nomeadamente a incerteza sobre as políticas da nova administração americana e a possibilidade de a União Europeia confiscar ativos russos. Alguns participantes no mercado (como Ray Dalio da Bridgewater) interpretam a subida como um sinal de desconfiança nas dívidas soberanas e no dólar como moeda de reserva. O ouro oferece a vantagem de ser um ativo sem risco de contraparte, e a sua procura tem sido sustentada por compras recorde de bancos centrais. Serve também como diversificação num contexto de avaliações elevadas noutras classes de ativos, embora os retornos recentes possam estar a gerar procura especulativa por via de extrapolação.
Uma perspetiva académica sobre o ouro enquanto investimento deve distanciar-se do exercício especulativo de tentar prever a sua evolução de curto prazo. As variações de preços nos ativos financeiros são, geralmente, muito imprevisíveis - como seria de esperar em mercados razoavelmente eficientes. Contudo, recorrendo a amostras longas e análise estatística, é possível responder a três questões fundamentais:
1. Protege contra a inflação? A resposta é um “nim”. A ideia de que o ouro protege contra a inflação (gerando retornos superiores quando esta sobe) é, em grande parte, um mito; a correlação é positiva, mas muito fraca. Por outro lado, um estudo comparou os salários de centuriões da era do Imperador Augusto com os de capitães dos marines atuais, concluindo que em 2000 anos os salários medidos em onças de ouro não mudaram muito. Ou seja, como o valor real dos salários sem dúvida cresceu, no muito longo prazo o ouro preservou o poder de compra e obteve um retorno real ligeiramente positivo.
2. É um bom refúgio contra crises? Depende da crise e da definição de "refúgio". O ouro teve retornos elevadíssimos no choque do Yom Kippur e na invasão soviética do Afeganistão, e teve ganhos (mais modestos) no 11 de Setembro, no Brexit, ou na invasão da Ucrânia. A sua correlação com as bolsas mundiais é ligeiramente negativa, mas fraca: não sobe obrigatoriamente quando as ações caem. Além disso, ao pensarmos num refúgio a imagem que nos advém é a dum porto de abrigo onde o barco fica seguro em tempos de tempestade. Não é propriamente um porto onde os barcos atracados às vezes afundam mesmo quando faz sol e o mar está calmo. E é isso que acontece com o ouro. O metal brilha, mas tem um "lado negro" pois pode gerar perdas extremas e duradouras. Entre 1980 e 2000, por exemplo, perdeu quase 80% do seu valor real.
3. É um bom investimento? Entre 1978 e outubro de 2025 o prémio de risco do ouro (o seu retorno médio acima dos bilhetes de tesouro americanos) foi de 3,8%, valor próximo das obrigações de longo prazo. No entanto, a sua volatilidade foi superior à das ações americanas (que oferecem prémios de risco muito maiores). Ou seja, como investimento isolado, o ouro parece reunir o pior de dois mundos: tem o retorno baixo das obrigações e o risco alto das ações.
Benjamin Graham, pai do Value Investing, considerava o ouro um investimento tão medíocre que dizia ser uma sorte os cidadãos americanos estarem proibidos de investir nele (o que era verdade na sua época). O seu discípulo Warren Buffet partilha desta visão preferindo ativos produtivos: um terreno agrícola produz colheitas anuais e continua a existir após um século; já o investidor em ouro termina o mesmo período com a mesma "pedra brilhante", tendo ainda suportado custos de armazenamento e seguros.
Será então o ouro inútil? Não necessariamente. O argumento dos retornos baixos do ouro é válido para o caso especial dum investidor centrado na rentabilidade de longo prazo e sem querer alavancar (algo como o Warren Buffet). Para ele o ouro realmente não é indicado. Mas para investidores com mais aversão ao risco (ou dispostos a alavancar) o ouro já pode ser atraente por permitir uma melhor gestão de risco.
Em suma, o apelo do ouro vem de ter um pequeno prémio de risco com pouquíssima correlação com as ações e obrigações. Essa falta de correlação é o que o torna interessante apesar da volatilidade alta. (Aliás, este é um exemplo contraintuitivo de como às vezes é possível reduzir o risco duma carteira acrescentando pequenas quantidades dum ativo “arriscado”.) Por isso, as otimizações de carteira normalmente recomendam um peso de 5% a 10% em ouro. Contudo, para a maioria dos investidores, o ganho marginal de eficiência é modesto, sendo possível obter desempenhos muito semelhantes utilizando apenas uma combinação tradicional de ações e obrigações.
Pedro Barroso, Diretor Científico do Executive Master in Finance (MIF) da Católica-Lisbon SBE