É redutor medir os custos de uma guerra apenas pelas estatísticas económicas agregadas. Muitos usarão este conflito para reforçar posições antigas, seja em política energética, seja em alianças internacionais. Mas guerras e revoluções são momentos de rutura: há sempre um antes e um depois.

 A guerra no Irão, desencadeada por um ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos, volta a criar turbulência no mundo ocidental e a expor fissuras na relação entre a América e os seus aliados ocidentais. O unilateralismo da administração norte-americana e a incapacidade de aceitar críticas ou ouvir aliados próximos fazem dela um parceiro cada vez menos previsível e, em alguns casos, embaraçoso. Este afastamento, também no plano dos valores, vai cavando um fosso crescente entre os EUA e a Europa.

Do ponto de vista económico e financeiro, o conflito reintroduz riscos sistémicos de forma desnecessária. Um risco sistemático, global e não diversificável, afeta simultaneamente mercados financeiros e atividade económica. Após o início da guerra, o Brent subiu rapidamente para cerca de 80 dólares um valor ainda assim inferior aos picos registados nos últimos cinco anos. A única forma de mitigar um risco desta natureza é aceitar custos mais elevados e, inevitavelmente, desempenhos económicos piores, através de uma redução da exposição estratégica ao petróleo.

Ainda assim, a reação dos mercados tem sido bem mais moderada do que seria expectável num conflito prolongado e violento naquela região. Isto sugere que grande parte dos investidores acredita que se tratará de uma guerra relativamente curta, com um regresso a alguma normalidade nos mercados mundiais de energia.

A vulnerabilidade europeia é evidente na dimensão das suas importações energéticas. O peso da energia nas importações da União Europeia depende claramente do preço do petróleo: em 2022 representou cerca de 23% das importações totais; em 2024, apenas 16%; e tudo indica que em 2025 terá sido menor ainda. A maior parte destas importações corresponde a petróleo, o que significa que é o preço internacional deste recurso que mais condiciona a “performance” económica europeia e também portuguesa. Esta grande variabilidade mostra também que só movimentos muito significativos e prolongados conseguem produzir efeitos económicos agregados materiais.

Os impactos económicos de uma guerra são sobretudo devastadores para as populações diretamente atingidas e, em menor grau, para empresas com exposição comercial específica. Para o resto do mundo, os efeitos distribuem-se em três níveis: mercados de capitais, atividade económica e finanças públicas.

Para além da subida no preço do petróleo, a incerteza nos mercados aumenta a volatilidade, reduz o valor de ativos sensíveis ao custo da energia e empurra investidores para ativos defensivos.

Os mecanismos de transmissão das guerras no médio oriente à atividade económica vêm por via dos preços da energia. Preços mais elevados da energia deterioram os saldos externos e reduzem recursos disponíveis para consumo e investimento.

Os governos podem sentir a necessidade de amortecer o impacto do aumento dos preços junto dos consumidores e utilizadores, ao mesmo tempo que uma atividade mais fraca pode reduzir receitas fiscais, o que provoca pressões adicionais sobre as finanças públicas.

Para países como Portugal, dependentes de energia importada em mais de 70%, estes choques são sentidos com rapidez. Mas, como demonstram conflitos anteriores no Médio Oriente, estes impactos medem-se geralmente em décimas de crescimento, e não em recessões automáticas. Só choques persistentes, combinados com outros fatores adversos, produzem recessões nos países a crescer normalmente.

A questão da inflação ilustra bem esta distinção. A subida do preço do petróleo provoca um aumento pontual nos preços da energia, mas isso não é verdadeiramente inflação; é apenas uma alteração temporária do preço de um bem, o petróleo. Só quando este choque se prolonga e começa a afetar expectativas, salários e preços dos restantes bens e serviços é que se transforma em inflação subjacente, podendo exigir respostas monetárias mais restritivas por parte do BCE.

As guerras geram insegurança e retraem decisões de investimento, mesmo longe das zonas sujeitas a bombardeamentos e combates militares. No caso europeu, existe ainda o receio adicional de que os EUA possam arrastar aliados para um conflito mais amplo. Isto aumenta a ansiedade económica e diplomática.

É redutor medir os custos de uma guerra apenas pelas estatísticas económicas agregadas. Muitos usarão este conflito para reforçar posições antigas, seja em política energética, seja em alianças internacionais. Mas guerras e revoluções são momentos de rutura: há sempre um antes e um depois. Os custos desta guerra podem manifestar-se, sobretudo, na erosão das relações transatlânticas, um impacto difícil de quantificar, mas com potencial para reduzir significativamente o bem-estar futuro.

João Borges de Assunção, Professor na CATÓLICA-LISBON