Há 15 anos a Católica Lisbon Business & Economics lançou o primeiro programa dedicado ao estudo da gestão do luxo.
O principal objetivo era o de levar o essencial da gestão do luxo – e das suas particularidades, muitas vezes em contracorrente com a doutrina em geral – aos profissionais portugueses
Pretendia-se ainda abrir caminho para um espaço amplo de discussão e de inspiração sobre a importância da excelência, como princípio fundador de respeito, de diferenciação e de valor económico, tão importante para um país com as características de Portugal, que teria mais vantagens em trabalhar qualidade em detrimento de preço.
Este ano, o Programa de Gestão do Luxo caminha para a 21ª e 22ª edições, respetivamente na CATÓLICA-LISBON e na Católica Porto Business School, pelo que atingiu a sua maioridade. Permitimo-nos olhar para trás e refletir sobre qual tem sido o seu papel enquanto promotor de formação especializada e de criação de um espaço de discussão e de comunidade, alinhando profissionais para a virtualidade da excelência.
Desta reflexão surgiram três perguntas:
a) Qual tem sido a contribuição deste Programa para o exercício de pensar o luxo em Portugal
b) Quais são os elementos constitutivos do exercício da excelência?
c) Como da mediocridade pode nascer a excelência?
Foi desafiante, pensar o luxo num país pouco desperto para este tema e até, diria, um pouco adverso ao mesmo. Nem sempre o foi no passado, mas várias causas sociais, económicas e religiosas contribuíram e reforçaram, durante os últimos séculos, uma ideia de luxo redutora e preconceituosa, associada a uma ostentação despudorada e a um mero exercício de afirmação estatutária.
Contudo, tem sido especialmente gratificante observar a abertura de um caminho para a discussão deste conceito. Para isso tem contribuído seguramente, a formação ministrada pela Católica Lisbon School of Business & Economics, bem como o aparecimento de mais espaços de discussão em distintos formatos, o interesse ávido da Imprensa, a curiosidade de intelectuais e de agentes económicos e por último, mas não menos importante, o impacto da comunidade residente estrangeira, sobretudo da brasileira, que muito ajudou, com o seu gosto exigente e poder de compra, no desenvolvimento de um mercado, até então com pouca expressão. A procura do luxo fomentou uma oferta mais consistente, abrindo-se assim uma nova oportunidade económica neste segmento de mercado. À altura desses desafios estão os profissionais que temos vindo a preparar nestes últimos anos.
A segunda reflexão responde à demanda pela essência dos princípios fundadores da excelência, e a esse propósito recordo-me da expressão, emotiva, de uma aluna que frequentou o nosso programa de gestão do luxo: “finalmente encontrei a minha tribo!”
A expressão referia-se a um espaço mental onde se partilhava a mesma linguagem. Uma dimensão onde a obsessão pelo detalhe, não era entendida como um capricho; onde opor-se a tudo o que não contribuísse para a elevação de um produto ou marca, comprometendo a sua qualidade e valores, não fosse percecionado como arrogância; o lugar onde trabalhar a estética superior, encantando e emocionando o cliente, não fosse apenas um exercício de estilo, mas um brotar de substância; um espaço com tempo para criar e ter um pensamento mais profundo sobre o mundo; um universo onde preservar e respeitar a tradição, a cultura e a identidade, perpetua as pessoas e os seus ecossistemas; um cosmos que existe para cumprir uma das necessidades humanas que define o Homem: a busca pelo EXTRA-ordinário.
A excelência, não é mais do que a expressão da nossa vontade de superar e fazer melhor. É um caminho, uma atitude reiterada que com o tempo se torna um hábito. Cola-se à pele, tornando-se um modo de vida. Não é necessário haver luxo, para existir excelência. Mas aquele não pode existir sem esta! Ambos partilham o respeito pelo próximo. Há neles uma intrínseca qualidade moral: tudo o que se faz, faz-se da melhor maneira possível, na esperança de despertar no outro, o melhor que este tem para oferecer. Existe uma reciprocidade na excelência, um círculo virtuoso.
E a excelência transmite-se?
Esta questão transporta-nos à última reflexão que dá mote a este texto: como da mediocridade pode nascer a excelência. A palavra mediocridade, apesar do seu inegável cunho depreciativo, quer tão simplesmente dizer “estar na média”. No luxo, contudo, ser mediano, não é suficiente. Deixa-nos necessariamente aquém da excelência.
As bases onde assenta e as suas práticas podem disseminar-se, mas é sempre necessário um terreno fértil para florescerem. É através de uma cultura de superação, de disciplina e de liderança forte, que o potencial humano se manifesta na sua plenitude e uma cultura mais elevada se propaga e fortalece.
Numa sociedade como a portuguesa, sujeita a uma natural atualização, ainda se encontram resquícios do já falado conceito do luxo como realidade perniciosa. Acresce uma liderança avessa ao risco e à inovação, uma economia extremamente focada na produção, uma cultura que subestima o valor do detalhe, que não premeia os mais habilitados e que olha de lado aqueles que vão mais longe e que se destacam. Os nossos profissionais terão de fazer florescer a excelência em todos os ambientes, mesmo nos menos favoráveis.
“Eu sou eu e as minhas circunstâncias e se não as salvo a elas, não me salvo a mim”. O correto enquadramento é de suma importância na formação de profissionais do e (de) Luxo. A sua formação habilita-os a serem agentes transformadores em contextos múltiplos, em que os diferentes graus do desafio se prenderão mais com as resistências das estruturas empresariais ou civis em que se integram e menos na “excelência” que já transportam.
Continuaremos, por isso, comprometidos na formação das novas gerações de profissionais do luxo em Portugal e cada vez mais motivados na alteração das circunstâncias onde exercerão. Não esquecer, contudo, que a excelência existe para além do universo do luxo. Floresce em escolas que elevam, em descobertas que prolongam vidas, em serviços públicos que entregam, em obras de arte que apontam o infinito e na simples forma como cuidamos dos nossos infantes, dos nossos seniores, da nossa cultura e do nosso planeta. A excelência deveria ser, por isso, um desígnio coletivo, um imperativo do nosso dia-a-dia.
Mónica Seabra-Mendes, Diretora do Programa Executivo de Gestão do Luxo da CATÓLICA-LISBON