Cozinhar mais dá saúde? Não é assim tão simples: a Conferência Cook & Health explora a ligação

Sexta, Setembro 27, 2019 - 12:53

A evolução constante da sociedade motiva mudanças na forma como as pessoas se relacionam com a comida. Se no passado o foco era perceber as mudanças naquilo que as pessoas comem, agora é essencial entender a maneira como as pessoas comem. A Terceira Conferência Cook and Health propõe-se a explorar a ligação entre "o que" e "como" se come, de uma perspetiva psicossocial. 

A conferência é organizada sob a coordenação da Doutora Ana Isabel Costa, Investigadora Principal FCT na CATÓLICA-LISBON, e co-organizada pela Doutora Cláudia Simão, Investigadora Auxiliar FCT na CATÓLICA-LISBON. Ambas estudam o comportamento do consumidor aplicado à comida e à cozinha. A organização também conta com o apoio do Doutor Xavier Allirot, Consultor Científico em Nutrição e Comportamento Alimentar e um dos fundadores da Cook and Health Network em 2015. 

A 3.ª Conferência Cook and Health terá lugar nos dias 17 e 18 de outubro na CATÓLICA-LISBON. Pode saber mais e registar-se aqui

A equipa organizadora da 3.ª Conferência Cook and Health respondeu a algumas questões, considerando a crescente necessidade de uma abordagem multidisciplinar no que toca aos temas que partilham fronteiras com vários campos científicos. Assim, devido a este foco na multidisciplinaridade, a 3.ª Conferência Cook and Health trata-se de uma oportunidade excelente para começar ou expandir redes colaborativas e para alargar o conhecimento no que respeita ao impacto dos comportamentos de cozinhar em casa. 

A cozinha e a saúde sobrepõem-se em vários domínios. O que vos atraiu a focarem-se neste campo na vossa investigação? 

Durante as últimas décadas, o envolvimento na preparação dos alimentos e o tempo passado a cozinhar diminuíram em muitos países ocidentais. Em simultâneo, a prevalência de sobrepeso e obesidade aumentaram tanto junto das crianças como dos adultos. Se os efeitos do consumo de diferentes categorias alimentares no ganho de peso já têm sido amplamente estudados, o imapcto do envolvimento na preparação da comida ainda não é bem compreendido. 

Quando se aprofunda o envolvimento na cozinha em casa, torna-se crucial compreender quais são os processos de auto-regulação que motivam os indivíduos a adotar e manter hábitos mais saudáveis de preparação e consumo de refeições. Mais do que informar sobre os padrões de dieta (por exemplo, aquilo que as pessoas comem), este tipo de análise mostra como as pessoas comem (com os seus antecedentes motivacionais, correlações sociodemográficas e económicas, e efeitos na qualidade da dieta e no estado de saúde). Descobrir estes padrões seria extremamente útil para promover mudanças positivas aplicadas a comportamentos de alimentação saudáveis ou sustentáveis. 

A promoção da alimentação social, alimentação com mindfulness e do envolvimento no processo de cozinhar deveria ser uma prioridade para orientações nutricionais futuras. 

Porque devem as pessoas interessar-se nesta área do conhecimento científico? 

Mundialmente, o sobrepeso e a obesidade aumentaram de 857 milhões em 1980 para 1,9 mil milhões em 2016. Só em Portugalm mais de metade dos adultos e um terço dos adolescentes têm atualmente peso a mais, com as mulheres, os idosos, os menos favorecidos e os menos educados com risco mais elevado de obesidade. Para responder a esta epidemia global, as políticas públicas de saúde da União Europeia estão a mudar o foco desde aquilo que as pessoas comem para a forma como comem. 

Bom design e boa implementação de políticas nesta área dependem crucialmente da disponibilidade e fiabilidade da informação sobre comportamento de consumo alimentar contextualizado. No entanto, existe uma falta de informação correta, abrangente, sistemática e atualizada sobre consumo alimentar em casa e fora dela. O investimento nesta área do conhecimento é crucial e irá aumentar a probabilidade de promover um enquadramento mais correto, orientado ao consumidor, no âmbito dos padrões saudáveis de consumo de refeições com implicações sociais específicas. 

Estão a ser desenvolvidas muitas estratégias para a prevenção da obesidade infantil e dos adultos. A maioria destas estratégias baseia-se em orientar as pessoas para aquilo que devem comer para ter saúde. Como as recomendações nutricionais quantitativas são bastante difíceis de seguir para a maior parte das pessoas, devíamos dar prioridade às recomendações qualitativas, mais fáceis de entender e acompanhar. Desta forma, a promoção de comer socialmente, de comer conscientemente e de se envolver no processo de cozinhar deve ser uma prioridade para futuras orientações nutricionais.  

O que torna a Cook & Health Conference especial em relação a outros eventos com temas semelhantes? 

Esta conferência é um congresso único na área da alimentação e nutrição a focar-se num tema tão específico. Congressos científicos de nutrição lidam habitualmente com temas diversos ou, quando são específicos, focam-se numa única patologia (como a obesidade) ou numa única população (como as crianças). A Cook & Health Conference é uma oportunidade única para conhecer os melhores peritos desta área, vindos de uma grande variedade de países e disciplinas. Entre os temas que iremos abordar, destacamos os seguintes: 

  • Definição de cozinha / capacidades culinárias 
  • Tendências na cozinha
  • Transição de capacidades de cozinha
  • Qual a eficácia de intervenções nas capacidades culinárias na mudança de comportamentos? 
  • Políticas de cozinha
  • Investigação experimental em intervenções de cozinha
  • O papel de cozinhar no processo de preparação da refeição 
  • Métodos de cozinha e os seus efeitos nas propriedades nutricionais e na saúde humana

O que esperam pessoalmente desta conferência?

Ao reunir investigadores e professores de todo vindos de todo o mundo, esperamos aprender sobre a investigação e intervenções de saúde pública mais recentes no tema da cozinha em casa e das suas consequências em temas associados à saúde. O ambiente multidisciplinar da Cook & Health Conference irá providenciar uma oportunidade excelente para alunos e investigadores júniores expandirem as suas redes colaborativas e ganharem novos conhecimentos a partir dos diferentes enquadramentos disciplinares no que toca a ententer e explorar o impacto dos comportamentos de cozinha em casa. No final de contas, este encontro profissional propõe-se a aumentar a percepção tanto dos públicos gerais como do setor académico para o desenvolvimento de mais e melhores políticas de literacia de saúde em Portugal. 

A terapia culinária está atualmente a ser usada como parte de tratamento para uma variedade de patologias mentais e comportamentais, incluindog depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, défice de atenção e vícios. 

Que aspetos sublinhariam de descobertas recentes na ligação entre a culinária e a saúde que vos tenham surpreendido? 

Um dos efeitos mais interessantes do envolvimento na cozinha vê-se nas crianças. Estudos recentes demonstram que envolver crianças em um ou vários passos da preparação da comida, como escolher uma receita, adquirir os alimentos ou cozinhar, pode ter efeitos benéficos nos comportamentos alimentares. Aspetos comportamentais importantes de comer como as escolhas alimentares, o receio de novos alimentos (neofobia alimentar) ou o gosto de comer são intensificados com o envolvimento no processo de dozinhar. Este resultado é importante porque sugere que uma estratégia simples, como envolver as crianças na preparação das refeições, pode ter efeitos benéficos na saúde a longo prazo. 

Outro aspeto interessante é que ao longo dos anos, muitas intervenções de cozinha mostraram que a alimentação saudável pode ser facilmente promovida com técnicas simples (como aulas culinárias online ou distribuição de folhetos). Uma meta-análise de experiências de campo recentemente publicada, conduzida por Cadario e Chandon, mostrou, surpreendentemente, um efeito contraditório ligeiro, ao sugerir que as intervenções deste tipo são mais eficazes na redução da alimentação pouco saudável do que em aumentar a alimentação saudável ou reduzir a alimentação total. 

Como uma terceira descoberta interessante gostaríamos de sublinhar a ligação entre cozinhar e a saúde mental. A terapia culinária está atualmente a ser usada como parte de tratamento para uma variedade de patologias mentais e comportamentais, incluindog depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, défice de atenção e vícios. Acredita-se que o processo de cozinhar alimenta o bem-estar psicológico, inspira a expressão criativa, ou aumenta a comunicação e cooperação com parceiros. Finalmente, iniciativas como o Teaching Kitchen Collaborative - uma rede de organizações líderes que usam instalações de escolas de cozinha como catalizadores para melhor saúde pública e pessoal em ambientes médicos, empresariais, escolares ou comunitários - estão a ser lançadas por todo o mundo para explorar o potencial da cozinha em casa tanto nos serviços de saúde preventivos como curativos. 

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