A investigação de Rita Coelho do Vale, Professora da CATÓLICA-LISBON, sobre os benefícios dos desvios hedónicos planeados tem merecido amplo reconhecimento e citação. O seu artigo, intitulado "The Benefits of Behaving Bad Badly on Occasion: Successful Regulation by Planned Hedonic Deviations", em coautoria com Rik Pieters e Marcel Zeelenberg, da Universidade de Tilburg, foi mencionado num artigo do jornal Britânico The Observer, intitulado "The Pleasure Principle: Is a Little Bit of Indulgence the Secret to Success?", publicado a 12 de junho de 2023.
Rita Coelho do Vale, reconhecida pela sua experiência e contribuições no domínio dos processos de tomada de decisão, da autorregulação e do impacto desta nas decisões de escolha e de consumo, realizou um estudo para explorar o impacto da inclusão de desvios hedónicos planeados em planos de objetivos, particularmente no contexto da perda de peso para quem faz dieta.
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"Sempre fiz dieta ao longo da minha vida. Quando estava a fazer o meu doutoramento com Rik Pieters e Marcel Zeelenberg, eles também queriam perder peso. Na altura, havia um fenómeno bem conhecido chamado "What the Hell Effect" (Cochran e Tesser, 1996), que sugeria que se as pessoas se envolvessem em comportamentos contrários aos dos seus objetivos, teriam maior probabilidade de desistir dos mesmos. Perguntámo-nos o que aconteceria se estes desvios fossem planeados e incorporados no processo de definição de objetivos. Será que poderiam motivar as pessoas a continuar a trabalhar para atingir os seus objetivos? Foi assim que começou a nossa investigação. É sempre gratificante quando a nossa investigação é apresentada nos meios de comunicação social, pois permite-nos partilhar as nossas descobertas com um público mais vasto."- Rita Coelho do Vale |
O estudo incluiu duas experiências controladas (dieta simulada e real) e um estudo online. Os resultados das duas experiências demonstram que a inclusão de desvios planeados de objetivos durante a procura prolongada de objetivos, em comparação com um processo de procura de objetivos simples e rígido, (1) ajuda a recuperar os recursos de autorregulação, (2) ajuda a manter a motivação dos consumidores para persistirem nas tarefas de regulação e (3) tem um impacto positivo no afeto experimentado, o que contribui para facilitar a adesão aos objetivos a longo prazo. Um terceiro estudo, realizado com “goal-strivers”, pessoas motivadas por objetivos, fornece mais provas dos benefícios dos desvios hedónicos planeados para a prossecução de objetivos numa variedade de objetivos.
O estudo sobre a dieta, envolveu participantes que estavam motivados para perder peso e tinham como objetivo consumir uma média de 1500 calorias por dia. Os investigadores formaram dois grupos: um grupo de controlo, em que os participantes aderiram a um processo de procura de objetivos simples e rígido, sem qualquer oportunidade de variação, e o grupo da “dieta intermitente” com um comportamento intermitente desviante hedónico, em que os participantes foram encorajados a ingerir apenas 1300 calorias em seis dias da semana, permitindo-lhes um consumo excessivo de 2700 calorias no sétimo dia.
Durante as duas primeiras semanas, os investigadores acompanharam meticulosamente os sentimentos de motivação, a disposição geral e o progresso dos participantes. Os resultados revelaram que os participantes em ambos os grupos registaram uma perda de peso, tendo o seu índice de massa corporal baixado de igual forma. No entanto, os participantes da condição em que lhes foi dada a hipótese de adotar um comportamento desviante, apresentaram uma maior motivação para prosseguir com a atividade restritiva. Este facto verificou-se tanto no contexto de perda de peso como em outros contextos diversos em que os participantes têm de restringir comportamentos de modo a atingirem o seu objetivo.
Os participantes que planearam dias de indulgência, incorporando desvios hedónicos no seu processo de dieta, relataram sentimentos mais positivos e mantiveram-se consistentemente motivados ao longo do estudo. Em contrapartida, os participantes que seguiram rigorosamente as suas dietas de restrição calórica, sem quaisquer dias de exceção, tiveram dificuldade em manter o autocontrolo e a motivação.
"Todos os dias temos objetivos de ordem superior que queremos alcançar. Estes objetivos podem ser tão variados como querer perder peso, poupar dinheiro, comer de forma mais saudável, fazer exercício, ou simplesmente ser mais simpático com os outros. Infelizmente, é frequente não conseguirmos atingir os nossos objetivos. Por isso, qualquer estratégia que nos ajude a manter o rumo e atingir os nossos objetivos é geralmente benéfica."
Esta conclusão tem o potencial de ajudar os indivíduos a atingir os seus objetivos e de fornecer orientações valiosas aos decisores políticos que pretendem apoiar a realização de objetivos. Contrariamente ao conselho dominante de persistência e busca inabalável de objetivos, frequentemente encontrado na literatura académica e de autoajuda, estas experiências enfatizam a importância de integrar momentos planeados de indulgência e relaxamento no processo de obtenção de objetivos, especialmente para os que exigem uma inibição prolongada de desejos, como a perda de peso e a poupança financeira. Aceitar desvios ocasionais de planos rígidos pode contribuir para a adesão de objetivos a longo prazo, tornando benéfico o envolvimento em comportamentos "desviantes" com moderação, desde que cuidadosamente planeados.
Para ler o artigo de investigação completo visite a página do Journal of Consumer Psychology aqui. Para aceder ao artigo do jornal The Observer, visite a página da notícia através da seguinte ligação.
Artigo escrito por Daniela Guerra, Comunicadora de Ciência no CUBE