Será este mais um texto criado por chatGPT?! Desde o seu lançamento, em novembro de 2022, temos visto diariamente exemplos que nos deixam surpreendidos e incapazes de perceber se é resultado de um humano ou de algoritmos...! Há pouco mais de 4 anos, em Silicon Valley, numa formação de Liderança e Transformação de Negócios, tive acesso a conteúdos que pareciam saídos de filmes futuristas de Hollywood. Regressei com a consciência de que, entre outras aprendizagens, “a ficção científica tinha-se tornado fato científico”. O chatGPT (IA generativa) é outro desses casos!

Costumo dizer, para simplificar ideias, que transformação digital não é sobre digital, é sobre transformação. E para transformar é necessário ter claro o “porquê” da transformação (o propósito), e em quê nos queremos transformar. Isto é especialmente importante porque permite focar equipas, agregar a energia coletiva para esse propósito e evitar a “vertigem do atraso”, ou seja, sobre investimentos que se fazem em tecnologias resultado da sensação de atraso face a um novo normal digital. Na verdade, o objetivo de as empresas investirem em IA (ou em processos de transformação digital) não é se tornarem digitais, mas sim gerar valor, e como esse valor impacta o “triple bottomline: People, Planet, Profit”. É nesse contexto que acredito no incrível papel acelerador da IA.

De forma simplificada, o que o chatGPT faz é pegar em dados disponíveis (tendencialmente até 2021), combiná-los e relacioná-los, construindo frases aparentemente inteligentes e uma conversa escrita estruturada. Há quem o chame “papagaio chique” sem consciência do que escreve, até porque é incapaz de distinguir entre verdadeiro e falso. Nessa linha de pensamento, AmitKatwala, editor da Wired, diz que o chatGPT “é um recordatório para a humanidade de que a linguagem é um pobre substituto para o pensamento e a compreensão, e que num mundo onde a tolice está a ganhar terreno, o chatGPT é apenas mais uma voz na cacofonia”. Outros, menos cáusticos, dizem que é uma “máquina futurista de perguntas e respostas”. Seja o que for, olhamos para o advento do chatGPT (e da IA generativa) com a mesma expectativa que existia quando surgiram os primeiros computadores ou os primeiros robôs. Independentemente da evolução, sabemos que nada ficará igual. Portanto, há processos de transformação pela frente. E onde há transformação, há oportunidades. 

Com foco principalmente no “triple bottomline”, há uma imensa oportunidade para as empresas que investem em IA para gerar soluções mais sustentáveis. A McKinseyestimou que o valor desbloqueado pela IA para ajudar a reduzir o desperdício alimentar no Mundo e regenerar ecossistemas naturais pode chegar aos US$ 127 bilhões em 2030. O impacto na economia mundial atingirá, estima-se, perto de US$ 16 trilhões em 2030! Podemos acreditar nestes números ou não, mas serão sempre volumes massivos de investimento. A “AI for Good”, uma plataforma digital das Nações Unidas que reúne empresas, empreendedores, “inovadores de IA” que se relacionam entre todos para identificar soluções práticas que promovam os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU, é um ótimo exemplo de como empresas, governos e sociedade civil podem cooperar para acelerar o impacto positivo da IA. E se acreditamos, como acreditamos, que a sustentabilidade é a única estratégia de desenvolvimento possível, então a IA tem um papel central na abordagem a cada ODS. Na verdade, há coisas extraordinárias a acontecer em todo o mundo, mostrando a importância de cooperar para atingir as metas dos ODS. 

Tomemos, por exemplo, o recente acordo dos EUA e da UE para acelerar e melhorar o uso da IA em domínios como a agricultura, saúde, respostas a emergência, risco climático, trocando dados alimentados por modelos comuns de IA. É um passo estrutural sem precedentes para processos de tomada de decisão que deverão levar a políticas mais inteligentes e eficazes! Ano após ano, as mudanças climáticas causam impactos significativos nos ecossistemas ambientais, económicos e sociais em todo o mundo. Se quisermos reforçar os esforços para alcançar “Net-Zero” até 2050, a IA é “A” ferramenta para construir uma sociedade mais responsável e sustentável, pela sua capacidade de analisar e relacionar mais rapidamente volumes complexos de dados e potenciar melhores decisões (data-driven).

Portanto, o tema deveria ser como escalar rapidamente a IA, usando-a como alavanca de transformação para o “triple bottomline”. Contudo, recordando o que referi atrás, a transformação não ocorre pelo simples facto de se investir em tecnologia. De acordo com a BCG, as empresas que escalaram a IA em nos seus negócios e obtiveram sucesso, tipicamente investiram cerca de duas vezes mais em pessoas e processos do que em tecnologias (10% do investimento em IA foi para algoritmos, 20% para tecnologias e 70% para incorporar IA em processos de negócios e novas formas de trabalho). Como a expansão da “IA generativa” e com os tremendos investimentos que as empresas já estão a fazer (as tecnológicas não são exemplo único), não devemos esquecer que, embora imparável, no final do dia, o propósito deve ser sobre alcançar um bem maior e ajudar as pessoas e sociedades a prosperar! 

Sem necessidade de muita imaginação sabemos, pois, que a IA irá revolucionar quase todos os setores e profissões. Do ensino às artes, da saúde ao direito, do marketing à programação, de produtos digitais a “intelligence” de Marcas, o que para alguns será um risco, para outros pode ser (será) um acelerador de performance e de impacto, no sentido que potenciará um aumento de produtividade ao realizar mais rapidamente tarefas, e/ou ao trabalhar multi-dimensões de forma simplificada. Complementará o ser humano em muitos casos, mas inevitavelmente substitui-lo-á em outros.

O impacto no Mundo não é de todo tranquilo, pois quando vemos conhecidos disruptores, como ElonMusk, Steve Wozniakou Andrew Yang, entre mais de 1.000 lideres de tecnologia e investigadores a defenderem uma moratória no desenvolvimento de sistemas de IA mais poderosos, argumentando com “riscos profundos à sociedade e à humanidade”, somos obrigados a pensar que prudência e bom senso são particularmente fundamentais sobretudo agora, que estamos a assistir a um desenvolvimento exponencial de soluções de IA que não se podem controlar de forma fiável. Os signatários da moratória argumentam que os sistemas de IA poderosos só devem ser desenvolvidos quando estivermos confiantes de que os seus efeitos serão positivos e os seus riscos capazes de serem geridos.

Para ajudar ao pensamento critico que cada um poderá fazer, finalizo partilhando um pensamento de YuvalNoah Harari (Historiador, Filosofo e autor dos best-sellers “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” e “21 Lições para o Século 21”: “Technology isn'tbad. If you know what you want in life, technology can help you get it. But if you do not know what you want in life, it will be all too easy for technology to shape your aims for you and take control of your life”.

Nuno Vaz Neto, Executive in Residence da CATÓLICA-LISBON