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Não se entende

Segunda, Setembro 20, 2021 - 11:13
Publicação
Observador

Não se entende que Alverca esteja ausente da discussão sobre o futuro aeroporto de Lisboa. Entende-se ainda menos, quando ouvimos decisores políticos a resignarem-se a opções de recurso.

A história da localização de aeroportos em Lisboa é longuíssima e começa, precisamente, em Alverca, em 1919, com a criação do Campo de Aviação. Podendo escolher qualquer local no entorno de Lisboa, com enorme disponibilidade de espaço, quem primeiro pensou a aviação na zona de Lisboa percebeu a vantagem de um espaço plano, amplo, vazio de habitações, com aproximações por cima de água. A escolha foi natural, embora, para a época, muito distante do centro da cidade. Nos anos 30, entende-se que é altura de aproximar o aeroporto do centro e a opção é pela Portela até pela articulação com o terminal aeroportuário dos hidroaviões que ficava, aproximadamente, onde está hoje o Pavilhão de Portugal na Expo, o Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo. Hidroaviões faziam as rotas intercontinentais; na Portela operavam-se os voos para a Europa. Entre os dois terminais, constrói-se a Avenida Entre-Aeroportos, que muda de nome para Avenida de Berlim já na década de 60, até porque nessa altura já o transporte em hidroavião caíra em desuso. É dessa altura a necessidade de reformular o Aeroporto Terrestre da Portela, com a construção de uma pista mais longa, que vem substituir uma das pistas originais. A nova pista não podia ser uma extensão da pista antiga, porque ia colidir com o Prior Velho e com uma topografia mais acidentada, pelo que se optou pela construção de uma nova pista, com um desvio de 10 graus em relação à antiga pista.

É nessa altura que a pista principal da Portela deixa de ser paralela à pista do velhinho Campo de Aviação de Alverca. É que até então, Alverca e Portela estavam pensados para serem estruturas aeroportuárias integradas e até então a opção natural dos pioneiros da aviação em Portugal parecia evidente a todos.

Seguem-se 40 anos de crescimento da Portela e de utilização complementar de Alverca, quase como “a oficina” de apoio. As OGMA expandem-se e a Força Aérea utiliza o Complexo de Alverca complementarmente às Bases Aéreas na região de Lisboa.

Na discussão de alternativas à Portela, nos inícios dos anos 2000, os famosos 10 graus de desvio das pistas são motivo para considerar Alverca tecnicamente impossível de utilizar em conjugação com a Portela. Ninguém se lembrou de tornar a opção Alverca tecnicamente viável, simplesmente rodando então a pista de Alverca os fatídicos 10 graus, assegurando um padrão de aterragem e descolagem paralelo semelhante ao que existem entre pistas em aeroportos nas mais importantes capitais europeias ou dentro dos mais movimentados aeroportos do mundo.

É que Alverca tem já então vantagens enormes face a outras opções: além de continuar a ser um espaço amplo, plano, vazio e com aproximações por cima de água, Alverca está agora incrivelmente próximo de Lisboa, sendo imbatível em termos de acessibilidades com os principais eixos rodoviários e ferroviários do País à porta do complexo.

Não se percebe, mas ninguém pensou no assunto então. É certo que havia então problemas que eram pertinentes em 2000 e não o haviam sido 80 ou 40 anos antes: a consciência ambiental era completamente diferente e as características do solo pareciam difíceis.

A questão ambiental coloca-se em qualquer alternativa, mas, de facto, o Mouchão da Póvoa, aquele ilhéu comprido que segue o leito do Rio Tejo na margem norte, era zona agrícola com alguma nidificação de aves. Eis senão quando, o dique de contenção desse Mouchão rompe-se, não é reparado e os terrenos agrícolas são arrastados ou tornam-se inviáveis pela salinidade, o que afasta a pouca fauna avícola para a margem sul. Como alguém disse: os pássaros não são estúpidos.

De repente, a questão ambiental deixa de ser questão na margem norte, onde urge redefinir os limites da Reserva Natural do Estuário, estendendo-a até onde verdadeiramente há valores a preservar na margem sul.

De repente também, o próprio Mouchão fica disponível para uma pista de aeroporto alinhada com a da Portela e semelhante a tantas e tantas outras por esse mundo fora, feitas junto a água com alguma elevação artificial para assegurar tempos próximos de subidas de níveis de mar. Megalómano! Gritarão alguns. Comparando com dezenas de outros aeroportos idênticos no mundo todo diria que não. A experiência nacional com aterros sobre água já vem de longe nas obras portuárias, de que são exemplo o cais avançado de Alcântara e as ilhas artificias para a indústria naval em Setúbal e, em aeroportos, o melhor termo de comparação nacional seria mesmo a grandiosíssima obra-prima da engenharia nacional que é a extensão da pista do Aeroporto do Funchal, da autoria desse génio que é o Engenheiro Segadães Tavares (recomenda-se vivissimamente a visita à parte de baixo da pista para perceberem a maravilha que ali se fez). É o próprio Engenheiro Segadães Tavares que confirma que uma pista no Mouchão da Póvoa não seria nem mais complexo, nem mais caro que o que se fez no Funchal.

E uma nota adicional: o Mouchão é encostado à margem, não é no meio do Rio Tejo…

Superadas estas restrições (segurança, ambiental e construção), Alverca é imbatível face a tudo o resto, como aliás perceberam os tais pioneiros da aviação em 1919.

Não tem comparação a mais nada em termos de condições aeronáuticas com aproximações sobre água, sem perigo ou perturbação sobre habitações. Só isto tem a enorme vantagem de permitir uma utilização contínua de Alverca, podendo libertar a Portela durante períodos noturnos.

Não tem comparação a mais nada em termos de acessibilidades por estar na margem norte que é origem-destino de 90% das viagens aéreas, estando a poucos minutos de automóvel e comboio do centro da cidade tudo em infraestruturas já existentes. Poderia (e deveria) ser reforçada a ligação de Alverca a Lisboa, reforçando todo o eixo de ligação entre Vila Franca e o centro da capital. Também seria importante uma ligação, em extensão do Metro de Lisboa, entre os terminais em shuttle dedicado.

Não tem comparação a mais nada em termos ambientais, porque as condições para se pensar uma infraestrutura de raiz com minimização de impacto seriam ideais.

Não tem comparação a mais nada em termos de expansão, dado o terreno livre que existe na zona.

Não tem comparação a mais nada em termos de manutenção dos equipamentos e bases aéreas militares na Região de Lisboa.

Não tem comparação a mais nada se articularmos um novo aeroporto com um terminal ferroviário de alta velocidade à entrada de Lisboa. Alverca tem as condições ideais para ser esse hub de transportes que repensaria toda a mobilidade na Região de Lisboa, sem necessidade de travessias, essas sim faraónicas e de difícil execução no contexto das finanças públicas nacionais (e já agora internacionais).

É por todos estes motivos (e nem se entrou nos evidentes deméritos das outras alternativas a serem consideradas) que não se entende que Alverca esteja ausente da discussão e do debate sobre o futuro aeroporto de Lisboa. Entende-se ainda menos, quando ouvimos decisores políticos a resignarem-se a opções de recurso, de custos avultados e de exequibilidade no mínimo questionável, enquanto suspiram por soluções que estão verdadeiramente disponíveis ali ao lado, em Alverca.

Não se entende, mesmo…

Luís Janeiro, Ricardo Ferreira Reis e Rui de Carvalho, Professores da CATÓLICA-LISBON

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