A abertura gradual da economia do nosso país terá de ser consistente e coordenada com os países europeus mais bem governados e com mais recursos, respeitando regras e recomendações sanitárias novas. Só essa coordenação será criadora de confiança nas famílias, nas empresas e nas instituições.

Cerca de um terço da humanidade está num estado de confinamento desde finais de março. A maioria está a obedecer às orientações das autoridades e alguns fazem-no por escolha própria.

Esta situação parece-me insustentável.

Passear por Lisboa, ou outras cidades, e ver os hotéis encerrados cria uma sensação distópica e perturbadora. A hotelaria é simbólica de um mundo que nunca pára. Os viajantes precisam de pernoitar todos os dias do ano.

Há muito que os antropólogos notaram que o Homem é uma criatura simultaneamente sedentária e nómada. E as sucessivas civilizações históricas foram capitalizando nas vantagens relativas de um ou de outro desses modos puros de vida.

A ideia do tempo de férias tem um duplo significado de paragem no trabalho e também de viagem. Como se a maioria de nós fôssemos sedentários, mas precisássemos do nosso nomadismo natural para recarregar baterias.

Uma interrupção temporária na normalidade da vida quotidiana para combater uma tragédia sanitária é totalmente aceitável e compreensível.

Mas a mesma interrupção por tempo indeterminado e longo é uma alteração fundamental na nossa própria natureza e irá criar consequências comportamentais essencialmente imprevisíveis.

Começam a surgir os primeiros dados fiáveis sobre as consequências na atividade económica resultantes do confinamento. O PIB (Produto Interno Bruto) terá contraído 9,8% na China no primeiro trimestre deste ano. Em França terá caído cerca de 6% e na Coreia do Sul também desceu 1,4%.

Estas quebras poderiam ser compagináveis com a dimensão da quebra de atividade económica no trimestre do verão em que há uma tradição de gozar férias durante a maioria do mês de agosto. Os dados que as autoridades nos apresentam são normalmente corrigidos dessa sazonalidade. E nalguns países, como Portugal, há até um crescimento forte de muitos serviços de hotelaria um pouco por todo o país com destaque para o Algarve, Madeira e região de Lisboa.

Só que o grande confinamento mundial é muito diferente de qualquer mês de férias. Em termos psicológicos e económicos. Cresce a ansiedade e perde-se o rendimento e o sentimento de esperança no futuro.

Parece-me razoável concluir que as consequências económicas do confinamento são maiores que o esperado pelas autoridades que o decidiram. Justifica-se que a decisão de parar uma parte muito significativa do mundo durante uma semana ou quinze dias devido a uma crise sanitária se possa tomar seguindo apenas os conselhos das autoridades de saúde.

Este tema está bem tratado na nossa constituição já que o estado de emergência só pode ser declarado por um período de quinze dias. E só pode ser maior se for declarada guerra.

A prorrogação sistemática do estado de emergência adultera o sentido da ideia de exceção transformando-o numa regra.

Note-se que mesmo sem confinamento haveria, com elevada probabilidade, uma recessão mundial e em Portugal este ano. Muitas pessoas estão confinadas pela sua própria vontade. E porque têm rendimentos ou dinheiro para o fazer.

A nossa sociedade terá de se adaptar às consequências de um vírus muito contagioso. Algumas regras comuns terão de mudar, pelo menos temporariamente. Parece-me, porém, que no caso de medidas de confinamento involuntário será preciso avaliar o impacto para além da saúde pública. O problema não é apenas de decisão política. É também das consequências nas várias esferas da vida coletiva e individual. E esse aconselhamento deveria ficar documentado.

As decisões devem ser baseadas em dados e teoria. Não devem ser apenas baseadas em dados. E também não devem ser apenas baseadas em teoria. Muito menos de apenas um ramo relevante do saber.

O segundo trimestre deste ano será um dos mais desafiantes de que há memória. Muitas empresas e instituições não resistirão. Mesmo com o auxílio do Estado.

Muitas famílias que vivem do rendimento do seu trabalho passarão dificuldades na satisfação das suas necessidades básicas. Mesmo com algum auxílio do Estado.

O futuro não é, porém, um destino predeterminado ou determinístico. Em particular depende da difusão, incerta, do vírus, e das decisões das famílias, das empresas e dos governos.

Mas transcende o nosso governo em Portugal. Deve por isso ser devidamente coordenado a nível europeu. Onde devemos adotar uma atitude construtiva e não reivindicativa. Procurando que as nossas medidas tenham sinergias positivas com as que vão sendo adotadas pelo BCE e pelos maiores países.

A abertura gradual da economia do nosso país terá de ser consistente e coordenada com os países europeus mais bem governados e com mais recursos, respeitando regras e recomendações sanitárias novas. Só essa coordenação será criadora de confiança nas famílias, nas empresas e nas instituições. E neste momento parece-me que a prioridade de política pública deverá ser o regresso à normalidade.

João Borges de Assunção, Professor da Católica Lisbon School of Business and Economics