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Um novo ciclo e as aprendizagens importantes

Tuesday, September 28, 2021 - 14:53
Publication
Jornal de Negócios

Respira-se este setembro o início de um novo ciclo. O ciclo da pós-pandemia com um regresso progressivo à tão desejada normalização da nossa vida quotidiana e económica. Um ciclo pós-eleitoral com novos executivos camarários que terão quatro anos para mostrar aos seus munícipes que mereceram o voto de confiança que lhes foi dado este Domingo. Um novo ciclo escolar em que se tentará recuperar o atraso nas aprendizagens provocado pela pandemia e preparar as novas gerações para um futuro em constante mudança. Um novo ciclo de vacinação contra a gripe, após o sucesso da campanha atual, motivo de orgulho de Portugal a nível mundial. Um novo ciclo de investimento e crescimento, acelerado pelo início efetivo do fluir dos fundos do PRR, a bazuca europeia para a recuperação económica.

Este poderá ser um ciclo muito positivo para o crescimento da Economia e para o bem-estar dos cidadãos. Mas muita coisa pode também correr mal. O aumento do endividamento de muitas empresas e famílias, aliviado temporariamente pelas moratórias, pode causar danos à economia a prazo. O assomar da inflação a nível mundial pode fazer inverter o ciclo de taxas de juro baixas do qual dependemos para a sustentabilidade da dívida pública, em particular numa fase de engorda da administração e serviços públicos. A miséria económica e social gerada num grande número de microempresas e famílias ainda não está visível nas estatísticas mas é já profundamente sentida pelas populações. E o impacto negativo da pandemia na saúde física e mental dos cidadãos ainda não é evidente, mas é grave e vai arrastar-se durante vários anos.

É, portanto, fundamental que ao iniciar este ciclo novo não nos esqueçamos das lições do passado, tanto o passado histórico que nos marca, como o passado recente da pandemia. Elenco aqui algumas dessas aprendizagens:

- A qualidade moral e técnica das lideranças faz toda a diferença. A task force da vacinação, liderada pelo Vice-Almirante Gouveia e Melo, realizou uma tarefa extraordinária de gestão, comunicação e coordenação com as autoridades de saúde e câmaras municipais, com grande sucesso. Em muitas áreas e dossiers (entidades reguladoras, task forces, estruturas de missão, lideranças de serviços da administração pública) é fundamental nomear líderes independentes, com valores sólidos e tecnicamente muito competentes para a tarefa à qual estão a ser nomeados, imbuídos de um espírito de missão. Ao invés, tornou-se comum na nossa vida democrática usar estas nomeações para recompensar carreiras político-partidárias, muitas vezes com resultados fracos ou mesmo desastrosos. Aos técnicos o que é da técnica, aos políticos o que é da política. Não podemos nem devemos partidarizar a Administração Pública.

- Os recursos excessivos podem ser uma maldição. Recursos fáceis e abundantes geram desperdício, corrupção e incentivos económicos perversos. Aprendemos isso com os programas europeus iniciais, em que não tínhamos modelos de governança e controlo eficazes. Aprendem isso todos os países sem instituições sólidas nem processos de governança transparentes que têm o “azar” de descobrir grandes recursos naturais, que depois se tornam fontes de conflitos e corrupção que minam o país e levam ao fortalecimento de regimes autoritários. Regimes autoritários esses que procuram controlar e beneficiar desses recursos, gerando a miséria da população. Nos próximos três anos, Portugal irá receber mais do dobro do volume habitual de fundos europeus, contando com os apoios do final do Portugal 2020, o arranque do Portugal 2030 e a bazuka do PRR. Esses fundos terão que ser usados com muita inteligência e visão estratégica, com preocupação com o mérito na sua atribuição e eficácia da sua aplicação, em detrimento do foco cego e habitual na rapidez da sua execução. Estes fundos europeus podem ser uma benesse, que não se tornem numa maldição.

- Evitar o regresso ao passado, mantendo as mudanças positivas na forma de trabalhar geradas pela pandemia. A digitalização forçada de muitos processos nas empresas e administração pública deve-se manter como nova forma de trabalhar, sendo mais eficiente e mais sustentável. O teletrabalho tem grandes vantagens em algumas funções e deve ser bem pensado na sua forma de implementação nessas áreas, sem prejudicar o sentimento de pertença e lealdade dos trabalhadores à sua organização. E mesmo que muitas pessoas voltem agora aos escritórios, faz todo o sentido manter a redução das viagens de negócios e realizar muito mais reuniões internas e externas virtuais, deixando os encontros físicos para momentos de trabalho longo em conjunto ou interações de co-construção de soluções.  É mais barato para as empresas e mais sustentável para os trabalhadores e para o Planeta. E Portugal deve criar uma infraestrutura e ecossistema que acolha empresas e talentos globais, uma oportunidade única que já está em curso a nível global e que se vai aprofundar nos próximos anos.

- Aproveitar as potencialidades do ensino digital. O ensino online não substitui a experiência presencial, mas quando desenvolvido pedagogicamente de forma complementar e integrada (blended) com o ensino presencial pode ser muito eficaz. O ensino 100% online pode também ser eficaz em áreas e segmentos de conhecimento especializado, permitindo, por exemplo, que educadores de todo o mundo colaborem com formandos de todo o mundo, criando um mercado global e sendo particularmente importantes para a formação profissional e executiva, na qual os formandos se mantêm a trabalhar, promovendo um sistema de aprendizagem e atualização de competências ao longo da vida.

Manter práticas saudáveis de higiene adquiridas com a pandemia. O uso regular de álcool gel e a redução de contactos físicos entre estranhos (um pouco contrário à nossa cultura mediterrânica), bem como o uso da máscara em ambiente lotados são formas eficazes e de baixo custo de evitar a propagação de doenças respiratórias virais, algo a que os Asiáticos, expostos a vagas anteriores de vírus respiratórios como o SARS, já se habituaram mas que criava aos Ocidentais alguma estranheza.

E, em geral, nunca desperdiçar uma boa crise para fazer as mudanças que são necessárias,  mas aprendendo que a capacidade de resposta extraordinária das pessoas em situações limite acontece tanto no setor público como no setor privado e no setor social, sendo fundamental ter uma noção de sistema integrado e complementar em muitas áreas da nossa sociedade, da saúde, à educação e aos transportes, para um melhor desempenho dos serviços aos cidadãos, em detrimento de uma visão estatizante de monopólio do serviço público.

E em tudo na vida manter planos de contingência para situações inesperadas, nunca perdendo a capacidade de aproveitar a cada dia as coisas boas que a vida nos traz, pois nada é garantido.

Que este seja o melhor novo ciclo possível para cada um de nós e para Portugal!

 Filipe Santos, Dean da CATÓLICA-LISBON

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