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A partir de 2026, as PME listadas estarão sujeitas à obrigação de reporte ESG, de acordo com a nova Diretiva de Reporting, CSRD. É por esta razão que empresas como IKEA e Unilever (citando alguns exemplos) estão já trabalhar ativamente com pequenas empresas para ajudá-las a fazer uma transição sustentável.

Após algum tempo de contacto próximo, no Observatório dos ODS nas empresas portuguesas, com várias grandes e pequenas empresas que operam na economia portuguesa, há duas grandes tendências que começámos a identificar:

1. As grandes empresas estão já muito conscientes dos desafios e oportunidades relacionados com a sustentabilidade. Ainda assim, algumas das grandes multinacionais a operar no nosso país não têm imperativos de sustentabilidade integrados na sua estratégia, não monitorizam os seus objetivos de sustentabilidade e não sentem que implementam e reportam as suas estratégias de sustentabilidade como gostariam. Não obstante, estão já a preparar-se para o “tsunami legislativo” que afetará profundamente os seus negócios nos próximos anos (principalmente as diretivas CSRD e CSDDD).

2. As pequenas e médias empresas (PME) encontram-se numa fase muito inicial, no que diz respeito à sua estratégia de sustentabilidade. A maioria não conhece com algum detalhe os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e desconhece a legislação de sustentabilidade que afetará profundamente os seus negócios no curto-médio prazo. 60,2% das PMEs afirmaram não conhecer as novas obrigações de reporte incluídas na nova diretiva europeia CSRD). As poucas que conhecem de forma mais profunda os imperativos da sustentabilidade, estão a trabalhar o tema (ainda) de forma superficial. Adicionalmente, na generalidade, as PME portuguesas não reportam sobre os seus objetivos de sustentabilidade. As que o fazem (mesmo que apenas internamente) afirmam que o principal motivo para o fazerem são as exigências dos seus clientes (grandes empresas).

Deste modo, e aparentemente, as grandes empresas parecem liderar o caminho da sustentabilidade. Mas está convencido que assim seja? Eu não. Explicarei o porquê em 3 pontos principais:

1. As PME são o motor das nossas economias

As PME representam 99,9% do total das empresas portuguesas, 78% do emprego total e 70% do valor acrescentado bruto da nossa economia. Estes valores são similares se olharmos para valores globais.  A nível mundial, as PME representam 90% das empresas, 50% do emprego total e 40% do PIB mundial. Assim sendo, estas empresas, ainda que detendo menos recursos e sendo menos poderosas em comparação com as grandes empresas, têm um forte impacto cumulativo nas nossas economias. Além disto, são fundamentais para o comércio nacional e internacional, pois fornecem recursos transformados às nossas economias.

2. As PME abastecem as grandes empresas
Como as grandes empresas são obrigadas (e em breve por força da lei) a cumprir critérios ambientais e sociais nas suas cadeias de fornecimento, não poderão comprar produtos que não respeitem determinados requisitos de sustentabilidade. Deste modo, se as PMEs não observarem práticas sustentáveis ​​de produção, ficarão fora do mercado futuro das grandes empresas, mas estas também não terão recursos para operar. Além do mais, é importante notar que, a partir de 2026, as PMEs listadas estarão sujeitas à obrigação de reporte ESG, de acordo com a nova Diretiva de Reporting, CSRD. É por esta razão que empresas como IKEA e Unilever (citando alguns exemplos) estão já trabalhar ativamente com pequenas empresas para ajudá-las a fazer uma transição sustentável.

 

3. As PMEs são empresas menores, mais eficientes e lean, acostumadas a adaptar-se rapidamente e inovar de forma constante

Em várias conversas com estas empresas nos últimos meses, vamo-nos apercebendo como estas são multitasking, exportam de forma profissional para os mercados mais exigentes e incorporam desafios reais nos seus negócios, com espírito de liderança. Não tenho dúvidas de que, com um business case claro em mente (que ainda não têm), estas empresas conseguirão transformar seu modus operandis e liderar o caminho da sustentabilidade, para bem de todos os stakeholders de mercado.

Ainda assim, as PMEs reportam ter falta de recursos e de uma orientação clara sobre como operar esta mudança para a sustentabilidade ao ritmo necessário (os dados concretos serão publicados nos próximos meses). Será que as podemos ajudar a abraçar este desafio e tornar a nossa economia, não apenas altamente competitiva, mas também um exemplo, ao mais alto nível, de uma “Economia de Futuro” e sustentável para todos?

Esperemos que sim! Principalmente, porque o comboio da sustentabilidade já partiu…

Filipa Pires de Almeida, Deputy Director do Center for Responsible Business and Leadership da CATÓLICA-LISBON